A Modista do Desterro – Pauline Kisner

Como era o Natal Vitoriano

Eu gosto muito do Natal e da história do Natal vitoriano. É a minha festa cristã favorita e nem é por causa dos presentes. Desde criança, eu gosto do clima que o Natal tem, das cores, dos sons e principalmente dos cheiros. Algumas das minhas memórias mais agradáveis incluem o cheiro que vinha da cozinha com a minha mãe preparando a Ceia e as músicas que Natal que eu cantava no coral e em casa. Confesso que na adolescência e início da vida adulta passei por aquele período tenebroso de negação de toda e qualquer tradição, mas, quando passei a morar sozinha, redescobri o prazer do Natal. Adoro montar a árvore, distribuir os presentes aos pés dela e espalhar coisinhas natalinas pela casa, apesar dos gatos, rsrsrsrs.

Como esse é o primeiro ano do blog e vocês amam Era Vitoriana, achei legal falar um pouco sobre o Natal nesse período. Vamos fazer uma série com três posts: as tradições de Natal vitorianas, algumas ideias de decoração da época e receitas históricas para você colocar na sua Ceia. Vamos lá?

No começo do século 19, o Natal não era uma festa com a importância econômica e o significado social que tem hoje. Outras datas religiosas como a Páscoa tinham uma importância muito maior no calendário cristão. Somente a partir da década de 1840 o Natal começou a ganhar os contornos da festa que conhecemos atualmente, graças a Charles Dickens, Henry Cole e à família real inglesa.

É interessante observar como o modelo do Natal vitoriano acabou se espalhando pelo mundo como o “Natal autêntico”, embora seja uma tradição cuja invenção podemos datar com alguma precisão. Quase tudo o que faz parte das tradições de Natal se mantém com poucas alterações desde a Era Vitoriana e independente da cultura ou do clima local. Basta lembrarmos como aqui no Brasil nossos pinheiros natalinos têm neve!

Como o Natal vitoriano se espalhou pelo mundo? Para entender isso, é preciso lembrar que, no século 19 a Inglaterra exercia o papel de modelo de gostos e comportamentos para os países que se queriam civilizados. Imitar os ingleses e franceses era ser chic.

Um conto (de sucesso) do Natal Vitoriano

Em 1843, Charles Dickens publicou aquela que é, provavelmente, a história de Natal mais encenada/filmada: “Um Conto de Natal”. Mesmo que você não conheça pelo nome, certamente reconhece a trama: um personagem rico e avarento que é visitado por três fantasmas na véspera de Natal, que o guiam através de uma jornada de reforma moral.

natal vitoriano charles dickens
Ilustração de John Leeche para a primeira edição de “Um Conto de Natal” (1843)

Apesar do tom melodramático da história, Dickens tinha uma intenção extremamente crítica ao publicá-la. Scrooge, o avarento, representava o burguês enriquecido com a Revolução Industrial, dominado pela sua ganância e incapaz de reparar na miséria que o rodeava, um insensível sem qualquer caridade cristã no coração.

Para os leitores de Dickens, a redenção do velho Scrooge era uma metáfora da sua própria sociedade. A Inglaterra era assolada pelo individualismo e pelo egoísmo e o Natal, com todos os seus acessórios, poderia ser um antídoto para essa decadência moral. Seria uma festa para reafirmar os valores familiares e promover a solidariedade, a religiosidade e a paz.

A excelente recepção ao conto de Dickens também se relaciona a um sentimento de eterna nostalgia pelo passado não vivido, que parece ser constante na sociedade ocidental. Essa nostalgia é marcado pela busca de um passado idealizado, que representa todos os valores que estão ameaçados no presente. Não por um acaso, a associação visual entre lembranças de Natal e infância começa a surgir aqui.

Graças ao conto de Dickens, a celebração familiar do Natal começou a ganhar força, como sinônimo da nova moral burguesa que a Era Vitoriana tornaria a regra.

Feliz Natal!

Outra figura muito importante para a simbologia do Natal contemporâneo é Henry Cole. Em 1843, ele encomendou uma ilustração natalina que se tornaria o primeiro cartão de Natal conhecido:

O cartão de Cole só tinha um problema: custava um xelim, o que era inviável para a maior parte da população. Mas a ideia em si caiu no gosto popular e logo as crianças – incluindo as da família real – começaram a produzir seus próprios cartões com desenhos e colagens. Ao longo do século 19, porém, a impressão se tornou cada vez mais barata, assim com a postagem no correio, tornando os cartões de Natal muito mais acessíveis. Em 1880, eles já eram uma indústria bem próspera que anunciava os novos tempos: o Natal vitoriano estava se tornando um negócio e muito lucrativo!


O pinheirinho de Natal

Em 1848, um volume da Illustrated London News apresentou uma gravura da comemoração do Natal no castelo de Windsor, que causou verdadeira sensação na Inglaterra:

Mais do que apenas a família real reunida, enaltecendo o modelo da família burguesa, a gravura mostrava uma novidade bem recente na Inglaterra: as árvores de Natal.  O icônico pinheirinho que está presente em boa parte dos lares brasileiros é uma tradição de origem germânica, que o Príncipe Albert levou para a Inglaterra em 1841. A novidade pegou. Em 1850, a Rainha Vitória chegou a encomendar uma pintura do salão onde se montava a árvore de Natal da família real:

Decorando a árvore

Sem pisca-pisca e pinheiro artificial, a árvore de Natal vitoriana era um pouco diferente da nossa. Primeiramente, era normal se utilizar uma árvore natural, derrubada para esse fim. As árvores podiam ser plantadas em vasos especiais ou colocadas em suportes específicos. No pé da árvore era comum que se montassem cenários: jardins, playgrounds com brinquedos e crianças em miniatura, cenas campestres.

As mulheres e crianças eram responsáveis por produzir os enfeites das árvores mesmo nas casas mais abastadas, pois esse era o espírito do Natal vitoriano. Bem antes de dezembro, nozes começavam a ser banhadas em tinta prateada ou dourada, bolinhas começavam a ser pintadas, cortavam-se enfeites de papel cartão e correntes de papel colorido. Frutas coloridas e pacotes de doces também eram pendurados nos galhos. Milho de pipoca era misturado a corante e as pipocas, unidas uma a uma com linha de costura para criar um cordão decorativo para os galhos (quem nunca fez um desses na escola?). Flores e laços, de tecido ou de papel, também eram usadas para conferir um colorido à árvore. Para finalizar, essa possível pendurar pequenas velas em potes de vidro e espalhar pó de vidro para iluminar a árvore.

As imagens que estampavam os cartões de Natal no período nos ajudam a ter uma ideia do visual final das árvores:

E mesmo com as árvores artificiais, as luzes e os enfeites plásticos, nossas árvores de Natal ainda são basicamente as mesmas desde os anos 1840!

O problema dos presentes

Presentes eram um caso muito delicado na Era Vitoriana. Idealmente, uma mulher não deveria dar presentes a um homem que não fosse do seu círculo íntimo, nem receber presentes de um homem de fora da família enquanto fosse solteira. Ainda assim deveria tomar muito cuidado ao escolher o presente: as regras da boa educação diziam que ele não devia ser nem muito caro, nem dar a aparência de muita intimidade com o cavalheiro.

Os presentes nem sempre eram dados pessoalmente. Podiam ser enviados por um criado, acompanhados por um cartão elegantemente escrito à mão. Mas caso um você quisesse entregar seu presente pessoalmente, precisava fazer isso através de uma visita formal, o que por si só já era cheio de regras!

Presentes para um cavalheiro

Os presentes que a dama ofertava deveriam ser modestos, simples e, de preferência, feitos por ela mesma. Revistas femininas incluíam entre as sugestões vários riscos de bordado e pintura, que poderiam ser aplicados em lenços, sachês para perfumar gavetas, saquinhos para guardar tabaco. Mas coisas como kits de barbear (sabonete + pincel + potinho para fazer a espuma), canetas, kits de escritório e caixas de tabaco eram presentes socialmente aceitáveis, práticos, e que podiam ser comprados em quase qualquer loja da cidade.

natal vitoriano kit de escritório
Um kit de escritório super básico da Era Vitoriana

Presentes para as damas

No caso dos cavalheiros, ninguém esperava que eles fizessem qualquer tipo de trabalho artesanal como presente, mas sim que comprassem algo de bom gosto e não muito caro em uma loja. Receber um presente muito caro de um homem com o qual não tivesse parentesco também não era bom para a imagem da dama. Entre as opções de presentes mais indicadas pelas revistas da época estão sabonetes com aromas delicados, perfumes, kits de costura, caixinhas de jóias ou de música. Peças de uso pessoal como xales, lenços ou mesmo jóias só eram tolerados entre parentes próximos.

Se a dama a ser presenteada não fosse da família do cavalheiro, os presentes ficavam bem mais restritos. Flores, doces, chocolates e frutas eram algumas das poucas opções socialmente aceitas, que não ameaçavam a reputação da dama. Até mesmo livros eram vistos como íntimos demais!

Flores: um dos poucos tipos de presentes que a mulher podia receber de um homem sem comprometer sua reputação – desde que ninguém lesse o cartão!

Presentes para os criados

Nas casas mais abastadas, era costume que os patrões presenteassem seus criados de alguma forma no Natal. Muitas vezes os presentes eram simbólicos, como frutas, doces ou peças de roupa e até uniformes novos, mas podiam incluir também itens de uso dos patrões que eram repassados aos criados em sinal de consideração. Como os criados trabalhavam durante a noite de Natal e no dia seguinte, era costume conceder uma folga a eles no dia 26. Era nesse dia que recebiam os presentes dados pelos patrões. Inclusive, este costume já se registrava bem antes da Era Vitoriana e teria dado origem ao “Boxing Day”, o dia de abrir as caixas de presentes. Aliás, sugiro muito que você dê uma olhada nos ótimos artigos sobre o Natal na época de Jane Austen que a Roberta Ouriques está escrevendo lá no blog Romances Históricos 😉

E entre as pessoas mais humildes?

De uma forma geral, havia a mesma ideia de que uma mulher solteira não deveria sair por aí recebendo presentes de homens, a menos que eles tivessem algum tipo de interesse romântico (ou escuso!) nela. O que mudava era a qualidade dos presentes: fitas de veludo ou cetim, cortes de tecido, meias bordadas (extremamente eróticas, por sinal!), flores, sabonetes perfumados e pequenos itens de toucador.

Entre os membros da família e amigos mais próximos, presentes simbólicos, mas ainda assim fora do que seria o consumo normal das pessoas, incluíam frutas cristalizadas, nozes caramelizadas e bombons de chocolate. Eventualmente, águas de colônia, que eram versões mais acessíveis de perfumes, também podiam ser dadas de presente.

As crianças e o Pai Natal

Um costume que surge nesse momento é a famosa meia na lareira – que na época não ficava necessariamente pendurada na lareira. Esse costume começa a ser registrado por volta de 1870, mais ou menos na época em que a figura do Father Christmas começa a se tornar popular como aquele que traz os presentes.

As crianças ricas e de classe média foram as maiores beneficiadas pela indústria do Natal. Graças ao avanços das fábricas, os brinquedos se tornaram mais abundantes e até mais baratos. Bonecas, carrinhos, trens, cavalinhos de madeira, espadinhas, jogos de tabuleiro e mini-instrumentos musicais faziam a alegria das crianças mais abastadas.

Do outro lado da sociedade vitorianas, as meias das crianças pobres eram preenchidas com outros presentes, como frutas da estação, nozes e…meias! As meias que são tão zoadas nos memes de Natal são uma tradição já antiga e, na verdade, representavam um grande benefício: meias novas no Natal significavam pés quentinhos durante o resto dos meses de inverno.

E por falar em Papai Noel…

Não, ele não foi criado pela Coca-Cola. Na década de 1870 ele já estava aparecendo como espírito-símbolo do Natal vitoriano e usando roupas vermelhas, que é a cor dos trajes dos bispos na Igreja Anglicana e na Igreja Católica, às vezes combinada com verde. Mas é nos anos seguintes, a partir de 1880, que ele vai ser associado de vez com as renas e o trenó e com o espírito de caridade do Natal, que se manifestava através dos presentes que ele deixava nas casas – e que, assim como o “Conto de Natal” de Dickens, deveriam inspirar as pessoas a partilhar umas com as outras, especialmente com os menos afortunados.

Enquanto preparamos os próximos artigos, que tal você nos contar o que achou do primeiro post da série?

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2 respostas

  1. Que incrível, eu estou fascinada pela beleza daquela época (mesmo em meio a tantas pragas e acontecimentos trágicos e históricos), e este blog tem sido um refugio para mim, conteúdo incrível. amei a matéria!

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