Etiqueta

Visitas na Era Vitoriana: Uma questão de (muita) etiqueta

Nos tempos atuais, fazer uma visita a um amigo ou parente é tarefa das mais corriqueiras, que dispensa etiqueta específica. Quantas vezes não recebe-se um convite informal com a frase “aparece lá em casa!” e isso basta? Mas, quando falamos sobre o século 19, as relações sociais das pessoas bem nascidas eram bem mais complexas do que isso. Falemos, portanto, da etiqueta vitoriana acerca das visitas.

Em primeiro lugar, fazer e receber visitas era tarefa da esposa. Era nessas ocasiões que, em contato com outras mulheres, ela tanto demonstraria a riqueza do marido quanto sua própria educação e domínio da arte de bem receber. A visita também servia para aproximar famílias e garantir para os maridos futuros acordos de negócios ou políticos.  E, como tudo na vida social oitocentista, a visita era regida por uma série de regras.

De acordo com a etiqueta da época, as visitas podiam ser de três tipos: formais ou de cerimônia, visitas de compromisso e visitas de afeto.

 

Como eram as visitas formais?

As senhoras elegantes costumavam abrir seus salões para as visitas durante o inverno e esperavam de suas visitantes uma etiqueta impecável. O horário era sempre vespertino, normalmente entre as três da tarde e sete da noite. Tornou-se um hábito ter um dia fixo para as visitas formais, o que permitia uma melhor organização, já que essas visitas exigiam que houvesse bebidas e comidas adequadas a um certo número de visitantes.

A duração das visitas variava muito. A boa educação ditava que, se você estivesse indo à casa de uma pessoa pela primeira vez, a visita deveria ser breve, entre dez e quinze minutos; se anfitriã pedisse, porém, você poderia permanecer mais um pouco.

Mesmo nesses curtos 15 minutos, a visitante estava submetida a um julgamento muito detalhado por parte do círculo social de sua anfitriã. Causar uma boa impressão nesse momento poderia resultar em convites para visitar outras famílias de boa posição (e garantir sua aceitação no mundo da “boa sociedade”) ou para eventos como bailes e jantares. Imagine a pressão!

Várias coisas eram avaliadas durante a visita:

 

1. A origem –  se a visitante pertencia a uma família com bom nome, antiga, ou de fortuna recente.

2. Riqueza – a renda anual da família da visitante era avaliada. Se ela tivesse um bom nome e pouco dinheiro, como no caso de uma nobre empobrecida, o nome da família ainda contava mais que o dinheiro em si.

3. Moral – se a visitante ou família tinha algum escândalo, por mais antigo e secreto que fosse, isso fecharia muitas portas na sociedade.

4. Educação– se a visitante conhecia todos os códigos sociais e sabia se portar de acordo com a sua própria posição na sociedade.

5. Apresentação – a roupa escolhida, o perfume, o penteado, a postura ao sentar, o modo de caminhar e o gestual eram algumas coisas que contavam muito na visita. Além disso, avaliava-se a capacidade da visitante de falar corretamente, com uma voz doce e sem erros/uso de palavras consideradas deselegantes (como os sotaques do interior), e de manter uma conversação agradável sobre os assuntos da moda entre as mulheres.

Falhar em qualquer um desses quesitos criava uma dúvida se a mulher estaria à altura do círculo no qual ela tentava entrar. O sucesso, porém, garantia uma aceitação triunfal e convites para outros eventos sociais.

A Drawing Room era um ambiente preparado para visitas, com várias cadeiras estofadas, mesa para o chá e piano.
Na foto, a Drawing Room da Mansão Tyntesfield, fotografa em 1878.

Como eram as visitas de compromisso?

Bastante similares às formais em todas as exigências. Uma vez que duas damas haviam iniciado contato social numa visita de cerimônia, era necessário cultivar essa amizade através de visitas periódicas, a cada dois ou três meses. O cômodo da casa onde a dama seria recebida é que indicava o quão íntima e bem-considerada pela anfitriã ela era. Ser recebida no gabinete privado da anfitriã ou na sala de desenho (“drawing room”) era um grande avanço, e essas visitas em especial eram chamadas de visitas de confiança.

As visitas de compromisso ocorriam em algumas ocasiões específicas, como obrigação social:

Felicitações – de Ano Novo, casamentos, nascimentos, noivados e condecorações.

“De Sobremesa” – ocorriam nos dias seguintes a um baile ou jantar, como agradecimento pelo convite.

Pêsamesno caso de um falecimento, somente após o primeiro mês de luto. Também usadas em caso de acidentes, doenças e prejuízos financeiros ou sociais que não sujassem o nome da anfitriã.

De puerpério – só podiam ser realizadas quinze dias após o parto e apenas entre as três e cinco da tarde, para não exasperar a mãe ou a criança.

 

Como eram as visitas de afeto?

Estavam mais próximas do tipo de visitas que nós fazemos hoje em dia à casa de um parente distante: embora haja certa intimidade pelos laços familiares, ela não é suficiente para desculpar qualquer falta de educação.

As visitas de afeto eram sempre feitas na parte mais íntima da casa ou nos jardins, se os houvesse na propriedade. Por mais íntimas que fossem as pessoas, continuava-se esperando que ambas as partes respeitassem estritamente os códigos da etiqueta.

 

Os homens não participavam das visitas?

Muito raramente, pois a presença de homens poderia causar desconforto às senhoras e trazer má fama para a anfitriã. Mas não que isso fosse impossível: um cavalheiro poderia fazer uma breve visita formal/de cerimônia, somente para cumprir o protocolo social, e retirar-se antes de causar qualquer problema para a anfitriã. Nas visitas de afeto era possível que os homens estivessem presentes, se já fossem amigos ou conhecidos das damas convidadas.

 

Como ser convidado para uma visita no século XIX?

Depois de ser apresentada a outra dama por uma amiga em comum, a mulher seria realmente julgada conforme os critérios que já comentei ali em cima. Um dos primeiros passos a ser dado para estreitar laços com alguém era a troca de cartões de visita, por si só uma arte cheia de regras próprias, que já exploramos nesse artigo.

Fonte: RANDALL, Rona. A Model Wife: 19th century style.

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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