Costura Histórica

Um vestido de noiva de 1785 (com molde)

Ruthven, Escócia. Janeiro de 1785

A jovem Isabella MacTavish certamente causou um grande impacto ao entrar na igreja usando um vestido pouco ortodoxo: ela se casou com um vestido de tartan, o xadrez de lã típico da Escócia, tendo o vermelho como cor predominante. Naquele dia ela se tornaria Isabella MacTavish Fraser e talvez nem imaginasse que seu vestido seria usado por noivas de mais duas gerações de sua família, nem que seria objeto de um ousado projeto de recriação histórica em 2019.

Fãs de Outlander sabem bem que o século 18 passou bem longe da tranquilidade para o escoceses e talvez já tenham feito uma leitura bem política do vestido de Isabella, com referências à revolta jacobita e à mal fadada batalha de Culloden em 1746. Alguns pesquisadores realmente acreditam que possa haver uma relação, embora isso seja especulação baseada no fato de que o xadrez usado teria sido fabricado nos anos 1740, mesmo sob os efeitos de uma lei da Coroa Britânica que havia proibido a fabricação e uso dos tartans nos trajes masculinos das Terras Altas . Uma análise posterior das fibras revelou que a fabricação não seria anterior a 1775, o que levanta algumas questões bem interessantes sobre como os habitantes das Terras Altas mantiveram a fabricação do tartan como forma de resistência simbólica à dominação britânica. O Ato de Proscrição só foi retirado em 1782.

A hipótese mais aceita pelos pesquisadores é que se tratava de uma demonstração pública de status social, já que os corantes vermelhos ainda eram bastante caros nessa época e atingir tons de vermelho tão intensos indicava que uma grande quantidade de corantes fora necessária. E, ao contrário do que possa parecer, a indústria de tecidos na Escócia do século 18 passava bem longe de algo amador e improvisado. Os tecidos mais produzidos na região eram os de linho e os de lã e há vários registros de importações de pigmentos pelas tecelagens locais, inclusive a valiosa cochonilha, um inseto que era usado na obtenção dos tons de vermelho. A gente já falou um pouco sobre a história dos pigmentos vermelhos nesse link.

 

O VESTIDO

O vestido em si é simples: um típico Robe a l’Anglaise, com zero decorações, o que deixa toda a ênfase do traje na padronagem do tecido. Por ser feito em lã ele é pesado e possivelmente era usado com um rump, as almofadas de bumbum e quadril que ajudavam a dar formato aos trajes do final do século 18. O vestido foi inteiramente costurado à mão, feito sob medida para a noiva, e tem como acessório um sash/faixa do mesmo tecido, que remete diretamente ao traje tradicional das Terras Altas:

Cortesia: Museu Nacional da Escócia (Edimburgo)

A construção das costas em pregas é muito característica do período, já que permitia dar formato ao vestido sem comprometer o tecido, já que a peça poderia ser desmontada depois para ser reaproveitada em outro estilo – o que não aconteceu nesse caso, já que o vestido chegou inalterado até o século 21 e foi usado como vestido de noiva por duas descendentes de Isabella!

Lindo, né? Aqui eu falo um pouquinho sobre como é construir as costas com essa técnica.

Ele tem mangas 3/4 e os típicos punhos franzidos dos anos 1740-1760. Os punhos, aliás, são uma das coisas que ajudam a reforçar a hipótese de que a própria Isabella tenha costurado seu vestido. As mangas têm um corte que foi escondido com um remendo interno pouco habilidoso, possivelmente porque elas ficaram muito apertadas!

Detalhe das dobras do punho

Os acabamentos internos são bem diferentes do que estamos acostumados a ver em peças vitorianas, por exemplo, mas são condizentes com o período do vestido, quando deixar as margens do tecido sem acabamento não era exatamente incomum. Porém, a falta de regularidade dos pontos reforça a ideia de que o vestido tenha sido feito em casa.

A frente tem dois tipos de fechamento. O fechamento interno é feito com dois painéis costurados no forro da frente, que foram duas “abas” fechadas com cordão. Esse tipo de fechamento é bem comum no século 18 e a técnica era usada também para ajustar internamente as costas de alguns vestidos, permitindo uma maior adaptabilidade da peça. Nesse vestido, os painéis, assim como o forro, são de linho cru:

Os ilhóses de metal ainda não haviam sido inventados, então é tudo costurado à mão mesmo, com ponto de casear.

O fechamento externo era aparentemente feito com alfinetes, quem é o principal método usado em trajes femininos no século 18, de vestidos a casacos.

UM ACESSÓRIO DIFERENTE

Um detalhe curioso desse vestido, que sempre chamou minha atenção, é o sash/faixa/xale que faz parte do conjunto. Não é o tipo de coisa que encontramos com frequência em vestidos do século 18, mas nada nesse traje é ortodoxo! Xales, fichus e outras coberturas de ombro eram bastante comuns na época, especialmente entre as pessoas comuns (não-nobres), mas esse é especial. Além de ser feito no mesmo tecido que o vestido e fazer uma óbvia referência ao arisaid, um manto feminino tradicional do traje típico das Terras Altas, ele faz par com um broche que foi dado de presente a Isabella pelo seu futuro marido. A família ainda tem o broche, que traz as iniciais de Isabella Fraser gravado nas costas. É um broche do tipo Luckenbooth, tradicionalmente usado como prova de amor.

Infelizmente esse não é o broche em exibição com o traje…

O PROJETO DE RECRIAÇÃO

Esse ano, num dos projetos mais audazes que já foi feito, uma equipe se reuniu no Museu Nacional da Escócia com o objetivo de recriar o vestido de Isabella MacTavish em inacreditáveis 48h.

© Simon Lees / American Duchess

Todo o trabalho feito foi aberto à observação e registro público de forma gratuita. A equipe incluiu diversos especialistas em costura histórica e história da moda, que estudaram o vestido original a fundo e procuraram realizar uma recriação de preservasse tanto as técnicas de costura quanto a modelagem original, que é um pouquinho diferente do que estamos acostumado a ver em outros trajes de museu. O trabalho inclui uma recriação do tartan usando teares do século 19 e pigmentos na mesma tonalidade e todo um cuidado de posicionar cada elemento do mesmo jeito que estava no traje original. O resultado foi esse:

Simon Lees / American Duchess

Além do vestido em si, foi produzido um mini-documentário contando um pouco da história do vestido e do projeto de recriação (em inglês)

E O MOLDE?

Depois de todo esse trabalho, a equipe da American Duchess fez a gentileza de disponibilizar o molde e as instruções completas do vestido num arquivo .pdf (em inglês), para download gratuito através da loja da marca. É preciso preencher um cadastro rápido com nome, sobrenome e e-mail e você recebe o link dos arquivos na sua caixa de e-mail. Clique aqui e garanta o seu!

REFERÊNCIAS

WATSON, Joanne. Is Isabella MacTavish’s wedding dress an example of traditional femala Highland Dress from the long eighteenth century? Dissertação de Mestrado – University of Highlands and the Islands. Outubro de 2019.

COMENTÁRIOS

Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »