Noivas Vitorianas

Um vestido de noiva de 1857 (com molde!)

No último artigo da coluna Noivas Vitorianas, falamos sobre o vestido de noiva dos anos 1840. Uma das coisas mais importantes naquela década foi o casamento da Rainha Vitória, uma das primeiras noivas a usar branco. Embora o vestido da Rainha tenha dado início a uma longa tradição de vestidos de noiva brancos, essa tradição só foi começar a surgir, timidamente, dos anos 1850 em diante. E é dessa década que vem nosso vestido de noiva do mês.

A SILHUETA DOS ANOS 1850

As linhas básicas dos anos 1840 não mudaram instantaneamente em 1850. Durante dois ou três anos, e até mais nos interiores e entre as classes mais humildes, prevaleceram as linhas dos anos 1840, que começaram lentamente a ceder espaço à nova silhueta dos anos 1850. De maneira muito geral, os anos 1850 são marcados pelo aumento das saias, que ganharam babados e camadas sobrepostas, e das mangas, que foram ficando cada vez maiores próximas ao punho:

A diferença de silhueta em 10 anos

E uma das coisas que vai possibilitar esse aumento das saias é a introdução das crinolinas, armações metálicas que eliminavam a necessidade de várias anáguas e suportavam muito mais tecido sem deformar:

Crinolina do tipo “Gaiola” ou “Cage Crinoline”.

 

UM VESTIDO DE NOIVA DE 1857

Em 1857, a jovem Margaret  Lang certamente causou um impacto e tanto quando pisou na Igreja Presbiteriana de Marylebone, em Londres. Talvez Henry Scott tenha contido um suspiro de encantamento ao ver sua noiva caminhando de braços dados com o pai, o rosto oculto pelo véu e o corpo delicadamente envolvido por metros e metros de seda marfim:

Nós não sabemos exatamente como foi o dia do casamento de Margaret Lang e Henry Scott, embora seu vestido e sua grinalda estejam perfeitamente preservados no acervo do Museu Victoria & Albert, em Londres.

Como era comum na época, o casamento aconteceu de manhã, por isso o vestido tem um decote tão alto (chamado de “corpete afogado” no Brasil). O museu informa que o vestido tem também um corpete baixo, próprio para bailes ou jantares muito formais, mas não disponibiliza fotos dele.

O corpete alto é um modelo do tipo basque, típico dos anos 1850, acompanhado por mangas pagodaque são ajustadas na cava e se alargam em direção ao punho.

Ele é fechado na frente com ganchos escondidos e decorado com contas peroladas costuradas direto no corpete. O museu também informa que o corpete tem alguns furos em diferentes pontos, muito pequenos, que sugerem que Maggie gostava de usar broches.

Um dos vários detalhes incríveis desse vestido de noiva é a decoração do alto da manga, feita manipulando o próprio tecido. Junto com essa “capa” falsa, finalizada com franjas de seda, não é exatamente um vestido de noiva discreto, nem simples; certamente custou uma pequena fortuna!

Com mangas tão amplas, é muito provável que nosso vestido de noiva incluísse também um par de mangas removíveis chamadas engangeantes, que podiam ser lisas ou bordadas. Eu voto pelas bordadas:

Museu de Belas Artes de Boston, 1856.

A saia traz uma outra característica muito típica dos anos 1850: a saia em folhos. Os “folhos” eram camadas de babados sobrepostos, que variaram em número ao longo da década. Mais frequentemente vemos vestidos da época com três ou quatro folhos. Às vezes essas camadas recebiam uma barra simples, mas também podiam ser decoradas com franjas ou passamanarias na mesma cor do tecido ou em cores contrastantes. Num vestido de noiva, a franja de seda no mesmo tom marfim dá uma certa dignidade ao conjunto e eu fico me perguntando se o vestido de Maggie fazia um certo barulhinho enquanto ela andava em direção ao altar…

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Preservado junto com o vestido está a grinalda usada pela noiva. Ela tem delicadas flores de laranjeira esculpidas à mão em cêra:

Embora o véu não esteja no acervo do museu, as fotografias da década de 1850 nos dão uma boa ideia de como seria um véu da época e como ele seria usado:

MOLDE VESTIDO DE NOIVA 1857

Esse vestido de noiva é um daqueles raros momentos em que o traje está preservado no museu e algum pesquisador produziu um molde dele. Nesse caso, nossa fonte é o maravilhoso primeiro volume da coleção “Patterns of Fashion”, da Janet Arnold, que traz um molde detalhado desse traje:

Clique na imagem para aumentar

Vale lembrar que esse não é um molde pronto para usar. Você pode ampliá-lo (cada quadradinho da grade corresponde a 2.54cm x 2.54cm) para ter uma noção de proporção, posição das costuras, etc. Mas ele serve muito mais como um guia para você traçar seu próprio molde 😉

 

 

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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