A Modista do Desterro – Pauline Kisner

Traje Brasilis: Escolhendo meu traje

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Depois de apresentar para vocês o projeto Traje Brasilis, chegou a hora de falar exatamente o que eu vou fazer por lá. A proposta original é que cada participante escolha um traje específico para pesquisar e recriar integralmente e isso foi um grande problema para mim. Quando o assunto é a obra do Carlos Julião, meus olhos brilham é com as aquarelas dos trajes da população negra, tanto dos cativos quanto dos libertos, mas principalmente dos libertos. Como nós planejamos apresentar os trajes sendo usados em nossos próprios corpos, recriar uma figurinha que retratasse uma mulher negra estava fora de cogitação para mim; assim, acabei escolhendo trabalhar com uma das figurinhas da prancha nº 20, que me parece apenas uma variação da prancha nº 24:

Elas são muito parecidas, mas a segunda figura é descrita no livro como sendo um “traje de ficar em casa”. Bem, qual é a fronteira que separa aqui uma roupa decente para sair de casa de algo considerado indecente no Brasil do século 18?

Tem algumas pistas bem interessantes. O cabelo desfeito é a primeira delas, já que cabelos soltos não eram considerados coisa de “mulher decente” até o início do século 20! Olhando a segunda figura também percebemos que ela está sem meias, com as fivelas do sapato abertas e parece estar sem as peças de suporte características da lingerie do século 18. Na primeira gravura, tenho a leve impressão de que a figura está usando algum tipo de sustentação no tronco (stays, talvez?), mas na segunda imagem claramente não há um corset ali embaixo.

Duas coisas nesses trajes me chamaram muito a atenção e foram definitivas para que eu escolhesse recriar a figura da prancha 20:

  • A presença do Banyan, esse casaco de influência orientalista, que tem a construção parecida com um quimono. Na Inglaterra ele era roupa de usar em casa, mas também aparece em alguns retratos, masculinos e femininos, de pessoas altamente estilosas. Como Portugal tinha uma proximidade muito maior com as rotas de comércio asiáticas, achei interessantíssimo esse registro do Banyan, que inclusive aparece em outros trajes do livro do Julião;
  • A estampa e a decoração da saia. Não posso afirmar que ele tenha reproduzido uma estampa específica; acho mais provável que ele tenham se inspirado nos estilos que estavam na moda na época e no momento estou reunindo referências de estampas semelhantes. É uma estampa grande porém delicada e a decoração da barra é um detalhe diferente e bem econômico: é bem possível que fosse uma tira de sobra do tecido, reaproveitada para uma decoração que eu nunca vi em modelos europeus. E, assim como o Banyan, há outros trajes do livro com decorações semelhantes. Talvez algo inusitado que tenha chamado a atenção do nosso artista justamente porque não era comum na Europa?

O traje tem peças muito simples de serem feitas, como a maioria das aquarelas do livro. Aí acabei ficando empolgada e resolvi que cabia mais um traje no orçamento + tempo: sim, eu vou realizar um projeto antigo e recriar um “traje de crioula” a partir de uma referência visual. A escolhida foi a figura 01 da prancha 29:

Tem tanta coisa maravilhosa acontecendo nesse traje, muito mais do que no primeiro traje! Ela está usando um shortgown (casaquinho) estampado que estava super em voga na Europa, com duas anáguas coloridas (que o artista fez questão de registrar bem discretamente ali do lado esquerdo), meias bordadas e sapatos claríssimos… Pra mim fica muito claro que Julião se inspirou numa população real de mulheres negras livres, que haviam comprado suas liberdades e viviam de seu próprio trabalho, para quem estar bem vestida e bem calçada era um recado à sociedade, enfatizando sua condição de pessoas livres. Me apaixonei completamente por esse traje e ainda estou tentando convencer a mim mesma para doar o traje pronto para um museu…

Os desafios do projeto

A modelagem das peças dos dois trajes é bastante simples e não foge muito do que já estamos habituados a ver em livros de costura histórica. Ainda não consegui me decidir completamente a respeito da construção: estou dividida entre usar a máquina nas costuras internas, até para aumentar a durabilidade, ou produzir todas as peças à mão com técnicas da época. Acho que isso é algo que provavelmente vou decidir nos próximos meses.

Em ambos os trajes existem duas coisas que me parecem ser os maiores desafios desse projeto:

  • MEIAS: eu não quero usar meias modernas e isso já está decidido. Encontrar um tricô tão fino quanto o que era feito na época está além de qualquer possibilidade e eu não sei fazer tricô. Restam algumas alternativas, como malha de algodão/ jérsei de algodão, já que os primeiros teares de jérsei são do século 18. Mas meias são peças difíceis de construir e confesso que estou preocupada em fazer algo legal, principalmente nos bordados do segundo traje.
  • ESTAMPAS: aqui o bicho pega, rsrsrsrs. É quase impossível encontrar algodão estampado com a proporção, padronagem e cores corretas para esse tipo de projeto. Estampar os tecidos em casa, usando carimbo ou pintura à mão mesmo, é uma forte possibilidade que estou estudando em parceria com o Sr. Modisto, afinal quem manja dos paranauês de pintura aqui é ele.

Apesar da preocupação com esses detalhes, estou bem contente com o andamento do projeto. Estamos com uma equipe incrível de pesquisadores, todo mundo comprometido e muito atento aos detalhes, e acredito que o Traje Brasilis será um sucesso!

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