Chapéus,  Costura Histórica

Sunbonnet Challenge 2020 – Inspirações

O Sunbonnet Challenge 2020 é um pequeno desafio de costura proposto pela Anna Worden Bauersmith, que é uma pesquisadora americana de chapelaria histórica, para movimentar um pouco a quarentena. Ele é bem simples e amplo: para participar você precisa fazer um chapéu de sol, de qualquer período histórico, durante o mês de junho. A participação é gratuita e a única coisa que os organizadores pedem é que os participantes documentem seu processo criativo e postem no grupo do desafio no Facebook, para ajudar a inspirar outras pessoas.

Se você procurar por “sunbonnet” no Pinterest, vai encontrar um monte de bordadinhos fofos como esse:

Esse tipo de chapéu, que aparece muito em desenhos animados antigos e qualquer coisa com tema de camponesa, provavelmente saiu de um modelo  que fez muito sucesso nos Estados Unidos nos anos 1950 e 1960:

Eu realmente não sei se esse modelo chegou a fazer sucesso no Brasil, mas ele tinha uma clara inspiração vitoriana. Nesse molde original aí em cima ele faz parte de um conjunto para dançar quadrilha (pense nos desenhos antigos do PicaPau e Pernalonga). Mas eles também podem ser encontrados em versões para piqueniques e outras atividades ao ar livre, inclusive nessas combinações adoráveis para mãe e filha:

A influência vitoriana, em especial dos modelos usados entre 1840 e 1870, é muito clara. Alguns dessas versões vintage eram adaptadas, mas outras eram iguais aos originais vitorianos!

Anos 1950
E esse é um original em linho dos anos 1850!

Chapéus como peças de proteção individual já eram comuns entre camponeses da Europa Medieval e, assim como os toucados, foram uma constante no guarda-roupa das mulheres trabalhadoras de uma forma geral. Os chapéus mais elaborados, usados pela nobreza e pela alta burguesia, tinham uma função bem mais de diferenciação social do que necessariamente proteção, embora chapéus femininos frequentemente recebessem véus para proteção do rosto em caso de viagens. No século 18, seguindo as transformações sociais da Revolução Industrial e Revolução Francesa, as oficinas de produção de chapéus se expandem à medida em que os materiais se tornavam mais baratos e a clientela era ampliada. Mas foi no século 19 que os chapéus se tornaram realmente populares em todas as camadas sociais.

A partir da Regência os chapéus que cobriam o rosto feminino – e protegiam contra sol e olhares indiscretos – se tornaram uma febre. Eles eram modelos grandes, feitos com materiais rígidos e duradouros, e decorados de acordo com a época do ano. Palha e buckram, além de armações metálicas, serviam de base para decorações com tecidos, rendas, flores e frutas:

Alguns modelos franceses de 1812

E claro que não dá pra falar de Regência sem citar o Poke Bonnet:

E as inúmeras sátiras sobre como ele dificultava a vida dos machos escrotos cavalheiros:

E eles não ficaram exatamente mais discretos nos anos 1830:

Tem uma certa discussão se esse tipo de bonnet da foto anterior poderia ser realmente considerado um sunbonnet. Essa definição está ligada diretamente à função da peça. Alguns pesquisadores argumentam que chapéus do século 19 que não possuem proteção para ombro e pescoço, ou uma aba larga o suficiente para encobrir o rosto e ombros, não poderiam ser considerados como sunbonnets. Nessa linha, os verdadeiros sunbonnets seriam vistos a partir dos anos 1840, como um chapéu ligado essencialmente às mulheres do campo e às famílias migrantes que se estabeleciam nas cidades industriais. Além de ter um formato muito característico de aba, que praticamente esconde o rosto, ele tem essa saia de tecido que protege os ombros e pescoço contra o sol – algo perfeito para agricultoras, jardineiras e migrantes em deslocamento, por exemplo:

1840-1850

Fora a existência da saia, não parece ter havido um padrão para os sunbonnets vitorianos. Embora a maioria dos que sobreviveram tenha uma saia que caía na altura dos ombros, outros são mais curtinhos:

Estados Unidos, 1866-1867

Alguns têm a aba reforçada com técnica de cording, que são essas canaletas preenchidas com cordões e engomadas:

1840

Outros, conhecidos nos Estados Unidos como slat bonnets, tinham espaço para inserir tiras de papelão ou buckram, que podiam ser removidas para lavagem:

As cores e padronagens também eram super variadas: lisos em várias cores, xadrez, listrado, floral, bordado… Os materiais também eram bem diversificados. E a existência de sunbonnets em materiais mais finos sugere que talvez eles também fossem usados em versões chiques como parte do traje domingueiro/de missa ou que também fossem usados pelas mulheres da elite em atividades ao ar livre.

Esse em gazar de algodão é um dos meus favoritos. Ele claramente não esconde nada, é só uma peça de estilo:

E essas três gracinhas em seda:

Como os formatos também são variados, existem alguns exemplares meio Scarlett O’Hara em museus americanos:

Tá afim de participar do desafio? É só pra pedir pra entrar no grupo do Facebook, responder às perguntas dos moderadores, e se inspirar. No próximo artigo já vou falar sobre o modelo que vou fazer, os materiais que escolhi e, claro, sobre o molde!

COMENTÁRIOS

Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »