Robe a la o quê?!?

“Robe a la o quê?!?”: A Mantua

No post passado falamos sobre o Robe de Cour e como ele era obrigatório na Corte francesa e nos países aliados da França, que seguiam a moda francesa de perto. Com uma relação problemática bem antiga com a França, a Inglaterra parece ter sempre relutado em adotar integralmente os estilos franceses, criando quase que uma linha própria de evolução dos seus trajes. Assim, na Inglaterra do século 18 o traje de corte era a Mantua e não o Robe de Cour/Grand Habit francês.

 

CORTA PARA O SÉCULO 17

Por volta do final da década de 1670, um novo estilo de traje feminino, menos formal, surge na França: a mantua. Embora não haja consenso entre os historiadores, é possível que o nome faça menção à cidade italiana de onde provinham as sedas que originalmente se usavam para este traje. A pista sobre a informalidade da mantua é reforçada pelo fato de que esse estilo de vestido é referido em várias ilustrações de moda da época como en deshabillé, um termo utilizado para indicar que o traje não era adequado para ocasiões formais.

mantua era originalmente um vestido folgado, para ser usado sobre o espartilho ajustado à cintura com uma faixa. Ao invés de saia e corpete cortados separadamente, a mantua era uma peça única e longa e todo o excesso de tecido era drapeado habilidosamente ao redor do corpo, para mostrar ao máximo a padronagem das sedas:

Uma típica mantua francesa dos anos 1680.

A mantua era vista como traje informal na França, tanto que alguns pesquisadores defendem que Luis XIV tenha instituído o Robe de Cour justamente como uma resposta à excessiva informalidade dos trajes femininos do final do século 17. Se na França a mantua acabou sendo gradualmente abandonada em favor do Robe de Cour, foi na Inglaterra que ela se consolidou como Traje de Corte. É da Inglaterra uma das poucas mantuas originais do século 17 a sobreviver intacta. Clique nas imagens para abrir em tamanho maior e ver os detalhes incríveis desse tecido:

VOLTANDO AO SÉCULO 18…

A mantua evoluiu de forma independente na Inglaterra e tornou-se obrigatório na Corte. Assim como o Robe de Cour na França, isso também tinha lá suas razões econômicas. Desde os anos 1690, a Inglaterra havia se tornado um importante centro de produção de seda, com a fuga de tecelãos protestantes da França devido às guerras religiosas. A obrigatoriedade do uso da mantua servia como estímulo para o crescimento da indústria de seda local e levou ao desenvolvimento de técnicas de tecelagem e estilos de pintura e bordado em seda que são tipicamente ingleses. Prometo que ensino a diferenciar a estamparia inglesa da francesa em outro post 😉

No começo do século 18, as mantuas seguiam a linha de saias com pouca ou nenhuma armação e complexos drapeados da cauda, como nesse exemplo maravilhoso de 1708. Clique nas fotos para abrir as imagens maiores e conferir os detalhes:

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A partir de 1720, quando os panniers (anquinhas laterais) entram na moda, a mantua vai evoluindo gradativamente para acomodar as armações e dar origem ao traje de Corte que dominou a Inglaterra até o início do século 19.

A MANTUA DE CORTE

A típica mantua do século 18 é um traje em três peças: corpete, stomacher e saia (muitas vezes referida em inglês como petticoat, que é a mesma palavra para anágua e pode dar um nó na cabeça). Esse estilo de traje de corte deu origem a um dos vestidos mais populares do século 18, o Robe a l’Anglaise, sobre o qual falaremos em outro post 😉

  1. CORPETE

O corpete da mantua inglesa não é uma peça rígida como o corpete do robe de cour, já que ele é feito para ser usado sobre o espartilho. Seu decote é bastante aberto, com o formato variando de acordo com a década. Um detalhe importantíssimo é o fato de que o corpete da mantua inglesa não possui fechamento nem cobre o busto completamente. Vamos aos fatos:

O fechamento frontal do corpete se dá com um stomacher, uma peça triangular, ricamente decorada, que é alfinetada ao corset. As laterais do corpete são, então, alfinetadas ao stomacher.

Stomacher bordado da década de 1720.
Acervo do MetMuseum. As alças laterais são para alfinetar o stomacher no corset.

Outra característica importantíssima da mantua é a modelagem ajustada nas costas, criando um efeito que enfatiza a cintura fina e simula um corte em painéis:

A modelagem do século 18 procurava aproveitar e preservar ao máximo os tecidos. Os materiais eram caros e eram frequentemente reutilizados quando os estilos de vestido mudavam. Isso significava que muitas coisas que nós simplesmente cortaríamos no tecido, como costas em painéis, eram substituídos por pregas e drapeados habilidosos. No caso das mantuas e de outros vestidos de costas ajustadas, o comum era que a costureira drapeasse as costas diretamente no corpo da cliente, para maximizar o aproveitamos e minimizar os dados ao material, já prevendo alterações no futuro.

O destino natural das costas drapeadas era se abrir na cauda, obrigatória com esse estilo de vestido. Nessa foto de um vestido preservado no Victoria & Albert Museum, você consegue visualizar o drapeado das costas:

2.  A SAIA

A saia da mantua é construída com painéis retangulares, sendo os painéis das pontas pregueados para encaixar o pannier. É comum nas mantuas que a saia seja pesadamente bordada na barra. Via de regra, todo o traje é feito com o mesmo tecido. As variações eram criadas pela troca de stomachers e dos estilos de babados removíveis das mangas.

Um detalhe importantíssimo: a saia da mantua é usada sozinha, sem sobressaias.

Os tamanhos e formatos das saias foram variando de acordo com os estilos de armação utilizados: nos anos 1750 alguns panniers chegavam a formar saias com 2.5m de largura e praticamente perpendiculares em relação ao tronco, enquanto que nas décadas seguintes as saias perdem largura e ganham linhas mais arredondas e fluidas.

Um exemplo do arranjo das pregas no painel lateral da saia vem desse vestido de casamento holandês dos anos 1750:

 

| SUGERIDO – Século 18: O que vai embaixo daqueles vestidos?

ONDE ENCONTRAR REFERÊNCIAS?

Esteja você trabalhando com um figurino ou apenas pesquisando sobre o tema, as melhores referências são trajes originais da época. Para nossa alegria, algumas mantuas originais foram preservadas em museus ao redor do mundo, que gentilmente fotografam essas belezas e disponibilizam para nós na internet.

A equipe do Museu Nacional da Escócia postou um vídeo curto no Youtube detalhando o processo de preparação para exposição de uma mantua original. A qualidade do vídeo é muito boa, ele já tem legendas em inglês e dá pra ver alguns detalhes bem interessantes da construção do traje. E de quebra você conhece o trabalho incrível que existe por trás da montagem de uma exposição de trajes históricos:

AQUELAS CURIOSIDADES ESTRANHAS

A corte inglesa foi a que mais tempo preservou o uso do pannier no seu traje formal. Nos anos 1780, quando mesmo em Versailles o Robe de Cour já estava sendo abandonado por influência da Rainha Maria Antonieta, as armações enormes ainda eram obrigatórias em Londres. E mesmo nos anos 1790, quando a moda feminina muda radicalmente para os vestidos de cintura império, o pannier continua fazendo parte do traje de corte inglês. O resultado era esse monstrengo:

Os panniers só foram deixados de lado no traje de Corte inglês com a coroação de George IV, tio da Rainha Vitória, em 1820.


ACOMPANHE A SÉRIE COMPLETA:

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Robe de Cour, o uniforme da Corte em Versalhes

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Robe a l’Anglaise

Chemise a la Reine

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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