A Modista do Desterro – Pauline Kisner

Regência: O que vai embaixo daqueles vestidos?

Definir o período da Regência em termos de datas é fácil: oficialmente ela vai de 1811 a 1820. No entanto, as silhuetas tradicionalmente associadas à Regência, e que estão em todas as adaptações de livros de Jane Austen, já começam a ser vistas em 1795, consequência da pequena revolução na moda que os franceses começaram quase sem querer em 1789.

As silhuetas que dominaram o século 18 são, por falta de palavra melhor, muito mais rígidas, marcadas pelos stays, armações, etc. São muito mais pesadas e formais:

Temos uma série de posts em andamentos aqui no blog falando sobre os vários tipos de trajes do século 18. Clique aqui para conferir.

Não que a Regência fosse informal. Mas, com suas linhas diáfanas e inspirações romanas, as modas do começo do século 19 chegavam a parecer indecentes em comparação às suas antecessoras:

Então, vamos espiar o que estava por baixo desses vestidos tão leves e revolucionários?

Os curiosos stays da regência

Assim como no século 18 e até na Era Vitoriana, a base do traje continuava sendo a chemise ou shift, uma camisa construída com peças retangulares e triangulares, com a função de absorver os odores e óleos corporais. A chemise era a única peça trocada diariamente e era sempre branca; na Regência, o algodão começa a ser usado também para a roupa íntima, dividindo espaço com o linho. A primeira grande diferença em relação ao século anterior estava nos stays, que era como se chamavam os espartilhos antes de 1830.

Uma reprodução moderna nos dá ideia da silhueta do século 18

Na Regência, a ênfase da silhueta estava toda no busto. A figura feminina ideal tinha seios redondos como os de uma estátua grega, e bem definidos embaixo da roupa, ou seja, separadinhos como num sutiã meia-taça moderno. Delinear o tronco não era tão importante e, por isso, as peças de suporte mudaram.

Long Stays

Eram os modelos mais alongados, que pegavam todo o torso, mas davam atenção especial à sustentação das mamas. Eles não usavam barbatanas, ou usavam apenas em locais estratégicos e em pouca quantidade. Uma das características mais distintas dos stays da Regência é a presença de uma peça de madeira removível, o busk. O busk era inserido em um bolsinho na frente da peça e ajudava a manter os gêmeos separadinhos. Aliados aos triângulos no busto, que introduzem a ideia de bojo, isso criava o efeito de seios de uma estátua grega:

Reprodução feita pela Redthreaded

Short Stays

Se você não tivesse um busto muito volumoso/que precisasse de sustentação extra ou não tivesse uma barriguinha mais saliente, havia um modelo mais curtinho de stays, quase como um top cropped moderno:

Redthreaded novamente, porque né?

Uma coisa importantíssima a ser notada aqui é o fato de que o que nós conhecemos como “cintura império” é resultado de uma releitura da moda da Regência no começo do século 20. Na Regência mesmo, a linha do busto ficava acima da linha natural. Sim, os gêmeos eram levemente empurrados para cima:

Créditos: Oregon Regency Society

Com anáguas não menos curiosas

É sério, eu adoro as anáguas da Regência porque ELAS TÊM ALÇAS:

Mas elas também existiam em versões que lembravam delicados vestidinhos de verão:

As anáguas eram sempre feitas em um tecido mais pesado e com a trama mais fechada. Por quê? Porque os vestidos da Regência eram leves, em tecidos semitransparentes – o que, a julgar pelas charges da época, causou problemas para mais de uma dama elegante, mas desatenta:

Chemisettes

Os decotes do período da Regência tendem a ser bem baixos. Mesmo as mulheres mais rycas e elegantes não passavam seus dias com os gêmeos assim, à mostra (embora tenha havido mais de uma beldade do período conhecido pelos seus decotes no limite da nudez!). No dia-a-dia, muitas mulheres preenchiam o decote dos vestidos com xales, lenços e chemisettes.

chemisette era uma fala camisa, curtinha quase sempre sem mangas, que era colocada sob o vestido e dava a impressão de um decote fechado. Elas eram feitas em tecidos de algodão muito finos e podiam ter uma série de decorações, de bordados a golas que lembram os rufos do  século 16:

Condessa Mary Nisbet de Elgin, retratada por François Gérard em 1804. (Galeria Nacional da Escócia)

Algumas vezes, porém, elas eram usadas até por cima do vestido:

As chemisettes eram assim:

As pantalettes

Uma das inovações da Regência são as Pantalettes, introduzidas em nome da decência. As pantalettes consistem em uma calçola em que as pernas são costuradas de forma  independente e unidas na cintura, criando uma abertura no entrepernas enquanto protege as pernas de acidentes como exposição pública. Esta peça original de 1820 do acervo do Met vai dar uma ideia mais clara do negócio:

BÔNUS

Um teaser da palestra “Undressing the Historical Lady”, para você ter uma ideia mais visual das camadas do traje diretamente no corpo:


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