Moda

Pandoras: as primeiras bonecas de Moda

As Pandoras foram uma das primeiras formas de divulgação de moda na Europa. Numa época em que as publicações de moda ainda não existiam (elas passariam a circular só nos anos 1700 e com um público bem restrito), as novidades em termos de roupas e acessórios circulavam pelo Velho Mundo em delicados corpos de bonecas.

O primeiro registro de bonecas sendo usadas como uma vitrine de moda é de 1321. Nesse ano, o alfaiate de corte do rei Carlos VI da França recebeu da rainha o pedido de um guarda-roupa completo para uma boneca, que foi então enviada como presente para a Rainha da Inglaterra. Nos séculos seguintes, essas bonecas, conhecidas como “Fashion Babies”, se tornaram um veículo de divulgação da moda entre as diversas Cortes europeias e um presente bastante trocado entre as mulheres das Casas Reais.  Em 1600, quando Maria de Médici estava para se casar com o rei Henrique IV da França, um dos presentes que recebeu dele foram amostras da moda da Corte francesa, enviadas na forma de bonecas que serviriam como moldes em miniatura para os alfaiates da noiva.

Uma das Pandoras mais antigas preservadas em museu é este modelo do início dos anos 1600 que faz parte do acervo do Royal Armoury de Estocolmo, na Suécia. Todo o corpo dela é feito de arame envolvido com uma linha grossa de seda imitando um tom de pele claro. O traje é todo feito de tafetá (originalmente púrpura, com mangas vermelhas, agora bem desbotado) com aplicações de renda dourada. O rosto é encapado em tafetá, com os detalhes bordados em seda, e ainda recebeu cabelos humanos, que foram estilizados conforme a época e decorados com pérolas verdadeiras. Essa princesinha tem 16cm de altura e pesa menos de 100g:

Só a título de curiosidade: a proprietária dela era a princesa Catarina, que foi mãe adotiva da Rainha Christina da Suécia (sim, aquela que renunciou, se converteu ao Catolicismo e foi viver em Roma).

Embora haja registro do uso dessas bonecas desde o século 14, foi no final do século 17 que elas começaram a se tornar populares entre a nobreza e a burguesia e ajudaram a firmar Paris como um centro irradiador de elegância para o resto do mundo ocidental. Além da Europa, elas também circulavam em alguns lugares do continente americano, em especial nas colônias inglesas e francesas. Ainda não achei uma referência sobre a circulação das Pandoras no Brasil, mas seguimos procurando.

As Pandoras eram confeccionadas pelos grandes ateliês de moda e enviadas de Paris para outras cidades com amostras do que estava sendo usado na França no momento. O corpo era geralmente feito de madeira entalhada à mão, com braços e pernas articuladas. A cabeça, muito mais detalhada, era feita em cêra e pintada à mão com os estilos de maquiagem da época, recebendo até mesmo cabelos humanos! As miniaturas, extremamente detalhadas, incluíam réplicas exatas não só das roupas, mas também das jóias, sapatos, tecidos e até mesmo penteados. E sim, corsets e anquinhas também faziam parte do kit de roupas das Pandoras!

A estrutura delas é só um pouquinho assustadora.

Um dos poucos modelos sobreviventes do século 17 é essa boneca inglesa de 1680, preservada no Museu Victoria & Albert. Seu corpo foi entalhado em madeira e recoberto com gesso, que depois foi pintado. O cabelo é humano e todos os trajes e acessórios trazem o estilo típico da Corte Inglesa da época. Uma curiosidade: as pintinhas do rosto são removíveis. Ela tem 53cm de altura e o museu não informa o peso.

No século 18, as Pandoras se tornam uma verdadeira febre. Com a melhoria do sistema de transportes, bonecas de Paris chegavam com facilidade mesmo às Cortes mais afastadas, como Moscou. As Pandoras se tornam objeto de coleção, exibidas em armários envidraçados. Alguns deles chegavam mesmo a ter o formato de uma casa de bonecas:

Modelo holandês do final do século 17 ou começo do 18. Rijksmuseum.

As damas deveriam ter pelo menos dois modelos delas: a Petite Pandora era vestida com os trajes informais usados nos aposentos privados (como o Robe a la Française):

Modelo inglês dos anos 1750. Victoria & Albert Museum

E a Grande Pandora era vestida com um Robe de Cour, o traje de Corte completo:

Pandora francesa dos anos 1760. RijksMuseum.

Embora as Pandoras não fossem inicialmente pensadas como brinquedos, é possível que, com o passar do tempo, tenham sido dadas às crianças – o que explicaria porque tão poucas das peças originais do século 17 e 18 foram preservadas. Ainda assim, as poucas que existem nos dão uma ideia da riqueza dessas bonecas.

Lady Clapham é uma das Pandoras mais famosas e uma celebridade dentro do Museu da Infância, em Londres. Ela pertenceu à família Cockerell e herdou o nome da casa deles na capital inglesa. Lady Clapham tem dois conjuntos completos de roupas, das minúsculas meias ao acessório de renda na cabeça (“fontange”), uma formal e outro informal. Eu amo a delicadeza de detalhes na construção da Lady Clapham e não sei lidar com esse corsetzinho minúsculo:

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Esse Robe a la Française é um exemplo perfeito do nível de detalhamento e da função puramente demonstrativa das Pandoras. Uma costureira experiente conseguiria facilmente montar uma peça dessas em tamanho real a partir desse tipo de referência:

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Embora a gente tenha falado basicamente das Pandoras femininas, também havia modelos masculinos, mas eles sobreviveram em número ainda menor. A própria Lady Clapham tem seu Lord e eles formam um casal fofo:

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O Museu de Belas Artes de Boston tem um outro modelo masculino de origem inglesa, provavelmente dos anos 1730 ou 1740:

Nós temos proporcionalmente mais peças do século 19, porque foi nessa época que novas famílias começaram a entrar na sociedade, enriquecendo através do comércio e da indústria. Esses novos ricos viam na moda uma forma de status e de provar seu valor diante da sociedade, e pressionavam a própria indústria da moda a atender essa demanda.

Há relatos de que, mesmo com o Bloqueio Continental que a França impôs em 1806, as Pandoras continuavam viajando da França para a Inglaterra, o que ajudaria a explicar como a moda inglesa continuou se atualizando os estilos franceses mesmo durante a guerra. A própria permanência do costume da Pandoras durante o século 19, quando a imprensa de moda já estava bem estabelecido, é algo para a gente olhar com carinho: seriam elas ainda um símbolo de status, por terem sido algo inicialmente restrito à nobreza ou uma espécie de objeto de afeto?

Lentamente, ao longo do século 19 as Pandoras vão desaparecendo e dando lugar a outros tipos de bonecas: a boneca-brinquedo e a boneca de coleção, que não tinha mais a mesma função de ser uma vitrine e veículo de disseminação da moda da época, mas permanecia um objeto altamente valorizado e feito com maestria com artesãos especializados.

PARA SABER MAIS

Pandora in the Box – Travelling around the World in the Name of Fashion“, de Lydia Maria Taylor.

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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