Artes Plásticas,  Moda

O Retrato da Baronesa

Ana Alexandrina  tinha 17 anos quando se casou com Francisco Teixeira Leite, em 1851. Trinta anos mais velho do que ela, Francisco já era viúvo da primeira esposa e ainda um modesto plantador de café. Nos próximos 20 anos, Ana Alexandrina veria o marido erguer uma das maiores fortunas do Império, chegando a receber o título de Barão de Vassouras em 1871. Nesse mesmo tempo ela teve onze filhos, que lhe custaram a saúde física e mental. Dona Ana Alexandrina Teixeira Leite, primeira baronesa de Vassouras, morreria com apenas 46 anos, em 1880.

Os Teixeira Leite faziam parte da elite de grandes fazendeiros, especialmente plantadores de café, que se desenvolveu no Brasil na segunda metade do século 19, superando a fortuna e até o prestígio político dos antigos produtores de açúcar do Nordeste. Homens como Francisco Teixeira Leite investiram uma quantidade muito grande de capital nas suas fazendas e também na sua imagem pública. Ao contrário do que acontecia no século anterior, os produtores de café não viviam em suas fazendas; eles tinham seus solares e sobrados na cidade, onde residiam durante a maior parte do ano e exibiam publicamente sua riqueza. O que isso significava? Que, assim como a própria Corte Imperial, eles buscavam suas referência de consumo e comportamento na Europa, especialmente na França e Inglaterra.

Seguindo uma ideia muito presente no pensamento vitoriano, é possível que D. Ana Alexandrina também fosse percebida como uma espécie de vitrine da riqueza do marido. Caberia a ela, através da imitação das modas e costumes da Europa, atestar aos olhos das pessoas a prosperidade de sua família. Assim, não é de se estranhar que ela tenha sido retratada dessa forma por Augusto Müller:

MULLER, Augusto. A Baronesa de Vassouras, s.d. Museu Imperial de Petrópolis.

É um retrato no estilo academicista europeu, muito semelhante ao que vemos nas pinturas de Winterhalter, o pintor não-oficial da realeza europeia na metade do século 19. Ao fundo, vê-se  a cidade de Vassoura,  residência oficial dos Teixeira Leite. A família tinha uma relação muito próxima com a cidade, já que o barão foi responsável direto e indireto por uma série de melhorias na região, dentre elas o transporte ferroviário. A vila de Vassoura foi, inclusive, elevada à categoria de cidade em 1857, por influência do barão, que se alternava na presidência da Câmara local com seu irmão.

O quadro de Augusto Muller não tem data certa, mas podemos tentar uma aproximação pelo estilo da roupa. Eu apostaria 1860, no máximo. Nossa bela baronesa usa um “vestido de aba rodada” (quem usa essa expressão é Gilberto Freyre, em “Vida Social no Brasil em Meados do Século XIX) em tafetá escuro, clássico das mulheres abastadas e casadas. Roupa clara era para as jovens donzelas.  Mulheres casadas, de respeito ou mais velhas reservavam os tons claros para a roupa de baixo ou detalhes, como luvas, golas e mangas de camisa. Além do traje, que captura nossos olhos logo de início, observe as mãos dela: estão nuas, mas a baronesa traz na mão esquerda um leque claro entalhado e um lenço bordado. São símbolos de sua condição social.

O CORPETE

O traje retratado era possivelmente de tafetá, forrado com um tipo de algodão toque acetinado (polished cotton). Tem detalhes em renda, possivelmente valenciennes e guipure, além de franjas de seda.

Dona Ana usa um corpete do tipo basque, como esse que apareceu nas páginas da Godey’s Lady Book em janeiro de 1857:

 

As basques eram conhecidas justamente por sua modelagem muito justa na cintura, obtida através de pences na frente e recortes nas costas, e suas mangas amplas, chamadas de mangas pagoda. A cintura fina era obtida através de uma cuidadosa ilusão de óptica, combinando ombros caídos (enfatizados pela modelagem dos ombros, que são cortados arredondados e com a cava levemente caída) e uma profusão de detalhes decorativos que enfatizavam o busto. Aliada às saias muito amplas, a basque criava a silhueta típica da segunda metade dos anos 1850, o que reforça a minha teoria da data. As basques podiam ter abas (mais compridas, como um colete) ou terminaram na cintura, geralmente com uma linha arredonda, nunca pontuda.

Molde reduzido de um corpete basque e saia, a partir de um original inglês de 1856. Fonte: “Patterns of Fashion”, vol. 1

As mangas pagoda amplas e mais curtas eram feitas para deixar à mostra a camisa de tecido claro e fino (linho, algodão ou seda), cheia de aplicações em rendas, passamanarias e fitas. Chamadas de engageantes, essas mangas eram removíveis e presas à cava do corpete através de cordões ou fitas. São típicas do período 1855-1860. No caso do retrato, acredito que as fitas de decoração sejam de veludo.

Museu de Belas Artes de Boston, 1856.

O colarinho não fazia parte da camisa, nem do corpete. Era uma peça à parte, removível, que era costurada ao corpete já engomada. Os colarinhos podiam ser feitos do mesmo material das mangas falsas, mas também em renda de crochê, bordado inglês ou renda de bilros. Manter os colarinhos brancos e bem engomados era sinônimo de elegância e asseio.

 

A SAIA

Mesmo sem mostrar a silhueta completa, esse quadro traz todo um estilo do fim da década de 1850. Vamos recorrer ao Godey’s Lady Book novamente, usando uma lâmina de setembro de 1859:

Prestem atenção principalmente no vestido marrom e no vestido preto. Mesmo tipo de manga da basque, com a camisa à mostra…E a saia, certamente sobre uma crinolina. Teria a modista de D. Ana buscado o estilo diretamente de uma revista europeia? Na época do retrato, muitas ilustrações de moda francesas e inglesas já circulavam no Rio de Janeiro, sendo reimpressas por publicações femininas especializadas, como o Jornal das Senhoras. Pelo que observei até hoje, as gravuras europeias circulavam com média de 1 ano de “atraso” nas revistas brasileiras. E coloco esse atraso entre aspas porque acredito que se tratava mais de adequação das diferentes estações do que qualquer outra coisa…

Acredito que a saia da baronesa tenha uma sobreposição de renda preta, possivelmente do tipo valenciennes, que combina perfeitamente com o que eu penso serem aplicações de guipure também preto nas mangas da basque. É possível perceber, também, que a saia não foi construída numa peça única; ela tem babados, só não sei se apenas de renda ou de renda+tafetá, formando diferentes “níveis”.

 

O TOUCADO

A única situação em que uma mulher vitoriana poderia aparecer com a cabeça descoberta eram os entretenimentos noturnos (jantares, bailes, ópera). Fora dessas ocasiões, mesmo em casa eles deveriam usar alguma cobertura no cabelo, como uma touca. Fora de casa, algum tipo de chapéu.

Entre 1855 e 1865 se tornam particularmente populares as lace caps ou fanchons, toucas diminutas apoiadas no alto da cabeça, com “orelhas” que caíam na lateral do rosto. As mais finas eram feitas em peças inteiriças de renda tecidas especialmente para este fim, enquanto outras eram criadas a partir de tule ou organza bordada e aplicação de barrados de renda, fitas e laços.

Os dois exemplos a seguir são da década de 1850, ambos do acervo do Museu de Belas Artes de Boston (EUA):

 

E aí, o look está aprovado?

 

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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