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Molly Houses e a cultura gay no século 18

No século 18, as Molly Houses eram locais de encontro seguro para homens gays. Isso mesmo com a homossexualidade, referida como “sodomia” na época, sendo considerada crime: desde 1533, durante o reinado de Henrique VIII, as práticas homossexuais poderiam ser punidas com multas, prisão e pena de morte. Até 1861 a homossexualidade permaneceria como crime capital pelas leis inglesas.

Para a polícia da época, as Molly Houses eram bordéis e tratados como tal, sendo submetidos com frequência a batidas violentas que deixavam um rastro de medo e prisões arbitrárias. Para se proteger da força da lei, as Molly Houses passaram a se concentrar em regiões específicas de Londres, geralmente em bairros de periferia, onde suas atividades eram toleradas e até protegidas através de acordos com policiais corruptos e criminosos locais. Isso acabou dando origem ao que alguns autores chamam de uma autêntica “subcultura gay” na Londres do século 18.

Muitas Molly Houses operavam oficialmente como cafeterias, estalagens e até pubs e eram frequentadas por clientes dos mais diversos estratos sociais, que procuravam ali segurança e certo anonimato. De acordo com os vários processos judiciais envolvendo as casas e seus clientes, as Molly Houses eram ambientes bastante liberais, onde transsexuais podiam vestir-se com roupas femininas e adotar nomes sociais. Um único traje comprovadamente ligado a uma Molly House do século 18 faz parte do acervo do Instituto de Tecnologia de Moda, nos Estados Unidos:

Mais do que isso: o mundo da Molly Houses desenvolveu uma cultura própria, com uma extensa rede de auxílio e proteção entre seus frequentadores e até um dialeto próprio! Rictor Norton, historiador britânico que pesquisa especificamente este tema, destaca a adoção de pseudônimos femininos pelos frequentadores das casas, precedidos por formas de tratamento como “Senhorita”, “Madame”, “Tia” e até alguns títulos de nobreza atribuídos às figuras de maior destaque. É o caso da Princesa Seraphina, que na noite de 21 de junho de 1723 desfilou pelos Jardins de Vauxhall soberbamente vestida, a caminho de um baile de máscaras a céu aberto. Antes de se tornar Seraphina, ela fora John Cooper, um valete trabalhando junto a famílias nobres; colecionando passagens pela polícia por embriaguez e “indecência”, ela perdeu o emprego e passou a viver como Seraphina em tempo integral, sobrevivendo da prostituição e de arranjar encontros discretos para homens de posição social elevada.

Seraphina é parte de um dos vários processos (ou tentativas de processos) movidos contra transsexuais e gays ingleses no século 18. Graças a esses processos, nós temos uma ideia das atividades que faziam parte do cotidiano dos frequentadores das Molly Houses.

 

Crossdressing

Embora nem todos os frequentadores das Molly Houses fossem transsexuais, era uma tradição dentro da comunidade a organização das Festival Nights: bailes de máscaras privados realizados nas casas, com os frequentadores participando mascarados e fazendo crossdressing. Esses bailes tradicionalmente aconteciam entre o Natal e o Ano Novo e a polícia parecia estar sempre atenta para perseguir e prender qualquer um dos participantes.

Casamentos nas Molly Houses

Autos processuais e panfletos satíricos dão conta da existência de cerimônias de casamento dentro das Molly Houses. Embora as descrições sejam bastante debochadas, e busquem reduzir essas cerimônias a meras tentativas de ridicularizar um “sacramento cristão”, Rictor Norton encontrou evidências de vários relacionamentos estáveis marcados por essas cerimônias. Um deles, no qual nossa ilustre Princesa Seraphina foi dama de honra, uniu Hanover Kate e Queen Irons, duas figuras que Norton encontrou também nos autos de um processo de sodomia. “Queen Irons” era o pseudônimo de um imigrante francês chamado John Hyons e “Hanover Kate” era um açougueiro inglês nascido John Coleman. Ambos foram processados por sodomia, expostos no pelourinho, multados e condenados a três meses de prisão – e se casaram logo após sair da prisão.

Um condenado por sodomia é exibido ao público no pelourinho. Ilustração de 1762.

Mas a polícia estava longe de ser o pior inimigo das Molly Houses.

A SOCIEDADE DE REFORMA DOS COSTUMES

No início do século 18, como parte de um movimento que ganharia grandes proporções no continente todo, a Inglaterra assistiu à formação de uma onda conservadora, de inspiração religiosa, que advogava uma reforma dos costumes em prol da moral. Seus membros argumentavam (não sem certa razão) que a nobreza, em especial, havia se transformado num grupo imoral, dado a todo tipo de excessos, e que a imoralidade estava espalhada por toda a Inglaterra. Um dos alvos preferenciais desses reformistas eram as prostitutas, vistas como agentes da perversão. Se na Era Vitoriana (1837-1901) os reformistas queriam salvar as almas das prostitutas, no século 18 eles queriam tirá-las das ruas a todo custo, de preferência para dentro das cadeias e casas de trabalhos forçados.

Foi graças à ação desses grupos de reformistas que as Molly Houses e a subcultura gay se tornaram conhecidas do público. Isso não quer dizer que somente no século 18 a comunidade gay tenha começado a se organizar; há indícios bem anteriores a isso, inclusive os primeiros processos judiciais movidos contra nobres sob acusação de práticas homossexuais. Porém, foi no século 18 que os reformistas empreenderam uma verdadeira cruzada contra os gays, baseados principalmente nas ideias de antinaturalidade e pecado. A ironia disso é que, se não fosse pelos reformistas, talvez a gente nunca tivesse uma dimensão exata das proporções que essa subcultura tinha na época.

O que os reformistas ignoravam eram o óbvio: as Molly Houses eram locais de encontro e socialização antes de serem um lugar para as pessoas fazerem sexo. Como em vários clubes de cavalheiros, muitos frequentadores iam lá só para beber e encontrar os amigos.

O CASO DE MOTHER CLAP

Margaret Clap, Mother Clap para os íntimos, comandava apenas uma das mais célebres Molly Houses de Londres. Clap não era apenas uma mulher de negócios, mas atuava como protetora dos clientes, tendo testemunhado a favor deles em vários processos e até abrigado alguns deles em sua casa em momentos de dificuldade. Seu estabelecimento era um dos maiores da região, com um grande salão de baile, serviço de bar e cozinha, e cerca de 20 quartos privativos. Seu dia de maior movimento era um domingo e foi num deles, em fevereiro de 1726, que uma batida policial fechou o estabelecimento e colocou Margaret Clap à mercê da lei junto com seus clientes.

A casa de Clap era oficialmente uma cafeteria privativa que pertencia ao seu marido, que raramente aparecia por lá. A batida e a prisão de mais de 40 pessoas em flagrante só foi possível graças a um espião: um membro da Sociedade de Reforma das Maneiras que se passou por marido de um frequentador assíduo da casa, John Partridge, que havia se tornando um informante dos reformistas após ser exposto publicamente pelo seu ex-amante.

Em um julgamento amplamente explorado pela mídia da época, Margaret Clap e mais dois proprietários de Molly Houses foram julgados com seus clientes. Ela foi condenada ao pelourinho, ao pagamento de multa e a dois anos de prisão, e seu nome nunca mais foi citado em nenhum fonte relacionada aos casos. Os que haviam sido presos em flagrante de ato sexual foram condenados à morte na forca, enquanto outros receberam sentenças de prisão (e morreram na cadeia) e até de degredo nas colônias do outro lado do Atlântico. Em dezembro de 1726, o último prisioneiro, conhecido como Plump Nelly, morreu na prisão enquanto aguardava julgamento.

Nos anos seguintes, vários panfletos e editoriais em jornais foram publicados denunciando os malefícios que os “vícios da juventude” traziam à Inglaterra. Mas, a partir de 1730, os métodos extremamente violentos  usados pelos reformistas para reunir informações nos processos começaram a ser questionados e, por volta da metade do século, essas sociedades já haviam perdido poder. E, ao contrário do que eles pregavam, seus esforços não haviam extirpado a homossexualidade da sociedade inglesa…

Em 1772, um novo escândalo atingiu o coração da Inglaterra: o Clube dos Macaronis, um grupo de gays oriundos da nobreza, conhecidos pelo seu preciosismo na moda e maneiras afetadas. Embora houvesse murmúrios sobre a homossexualidade dos macaronis, foi somente com o processo público e condenação do Capitão Robert Jones que as suspeitas se confirmaram, levando a Inglaterra ao primeiro debate público sobre homossexualidade. Mas, enquanto médicos, legisladores e religiosos debatiam as questões legais sobre o tema, os caricaturistas ingleses se dedicavam a cristalizar uma imagem satírica do homem gay que ainda  vive no imaginário do Ocidente: rico, extravagante, afetado, muito bem-vestido e dominando todos os códigos do bom gosto.

Uma sátira dos Macaronis de 1773

 

REFERÊNCIAS

O site do historiador Rictor Norton é a melhor fonte para o tema. Além de disponibilizar partes da sua pesquisa e fontes primárias sobre o assunto, ele traz ótimos conteúdos sobre temas como homofobia e cultura queer em outros períodos da História.

 

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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