A Modista do Desterro – Pauline Kisner

O fabuloso livro de amostras de Barbara Johnson (1746-1823)

Um dos meus maiores desafios dentro do Projeto Traje Brasilis é entender quais tecidos eram usados no Brasil do século 18 e de onde eles vinham (Índia?Inglaterra?França?Produção local?), para aí conseguir reproduzir a estampa do traje que vou reconstruir. E, enquanto eu pesquisa referências de estamparia do século 18 para tentar achar alguma coisa parecida com a aquarela que eu escolhi, acabei esbarrando nessa preciosidade que é livro de amostras de tecidos de Barbara Johnson.

Livros de amostras ou swatch books eram os catálogos de tecidos do século 18 e 19, usados por fábricas e lojistas, mas não só eles. Maria Antonieta possuía livros de amostras para ter uma noção exata dos tecidos de que eram feitos seus trajes, já que seu guarda-roupa era um negócio aparentemente imenso:

livro de amostras tecidos século 18
Página de um dos livros de tecidos de Maria Antonieta, datado de 1782.

Barbara Johnson começou a colecionar amostras de tecidos aos oito anos, em 1746. Ao longo de sete décadas, ela registrou a mudança nos gostos de cores e estampas, além de guardar recortes de revistas de moda com as silhuetas icônicas de cada época. Ao lado das amostras de tecido é possível ler as observações dela, descrevendo nomes de tecidos, locais de origem, preço e até informações sobre quais seriam os usos mais adequados. Barbara tinha um grande interesse pela moda e manteve um registro preciso de seus trajes e dos trajes de outros membros da família até 1823, dois anos antes de sua morte.

Barbara viveu um momento muito intenso no que diz respeito à moda. É no século 18 que as primeiras publicações especializadas começam a circular, levando para toda a Europa as modas da França. Antes do século 18, a maior forma de divulgação das tendências francesas eram as Pandora Dolls, mas o consumo dessas bonecas pertencia mais à nobreza. No século 18, o aperfeiçoamento das técnicas de impressão permitiu que as primeiras revistas de moda fossem impressas em formato de livro, inclusive com gravuras coloridas, e com um preço muito inferior ao das bonecas, tornando o consumo dessas publicações acessível à burguesia que estava se tornando cada vez mais poderosa graças à indústria e ao comércio. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento dos teares mecânicos e o aperfeiçoamento das técnicas de tingimento e estamparia aumentou enormemente a disponibilidade de tecidos no mercado, levando também a um barateamento dos preços. Os tecidos de seda e as rendas continuavam o suprassumo do luxo, mas uma nova fibra estava sendo introduzida com toda a força no mercado europeu: o algodão, que respondia muito melhor ao tingimento e à estamparia. E Barbara viveu no turbilhão dessas transformações, registrando toda a passagem dos enormes vestidos do século 18 às silhuetas delicadas da Regência.

Todo o seu trabalho pertence ao acervo do Museu Victoria & Albert, em Londres.

Outras páginas do livro podem ser vistas diretamente no site do museu, nesse link.

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