A Modista do Desterro – Pauline Kisner

A Linguagem da Flores na Era Vitoriana

Quando a Rainha Vitória e o Príncipe Albert se casaram em 1840, a noiva usou um vestido branco, que foi algo incomum exceto entre as mulheres ricas pelo menos até a Primeira Guerra Mundial. Apesar da inovação, a jovem Vitória repetiu um simbologia tradicional ao usar uma tiara flores: delicados botões de flor-de-laranjeira, um costume supostamente oriental e trazido para a Europa pelos Cruzados durante a Idade Média.

Esse retrato, pintado em 1847 por Franz-Xavier Winterhalter e oferecido pela Rainha Vitória como presente para o Príncipe Albert sete anos após seu casamento.

A coroa de flores da Rainha Vitória não era um caso único na história dos casamentos, tampouco o primeiro. A simbologia das flores já era amplamente conhecida e praticada na Grécia Antiga, havendo plantas consagradas aos deuses e associadas a diferentes virtudes/sentimentos/comportamentos. Esse tipo de associação se repete no Oriente também, de modo que não é possível assegurar, com absoluta certeza, como ela chegou ao século XIX. Sabemos, porém, que nos anos 1800s era possível enviar recados  com diferentes flores. Os botões de flor-de-laranjeira da Rainha Vitória, por exemplo, eram bem claros: “sua pureza equivale à sua doçura”. As flores de laranjeira, já completamente desabrochadas, estavam associadas à castidade.

Se os códigos de flores aplicados ao amor podem ser encontrados na Inglaterra pelo menos desde o século XVI, foram os vitorianos que resolveram sistematizar todos eles numa área do conhecimento chamada de “Floriografia”. A prova da popularidade dessa linguagem das flores é a quantidade de revistas e almanaques publicados sobre o assunto não só na Inglaterra. Os almanaques de flores portugueses, por exemplo, circulavam também no Brasil, conforme estudos sendo realizados na Unifesp.

Além do uso na cerimônia de casamento, as flores eram empregadas em diferentes situações, como a corte (segundo algumas crônicas, de um rapaz interessado numa moça esperavam-se nada menos que seis meses de belos buquês!), o luto (nesse caso as flores do maracujá eram muito utilizadas, ao lado dos cravos), as danças de grupo nos bailes…

Essa curiosa simbologia pode ser encontrada em versão resumida numa publicação do fim da Era Vitoriana, intitulada “Language of Flowers”.  Alguns dos significados para as flores mais comuns estão na lista abaixo:

A Linguagem da Flores na Era Vitoriana:

  • Acácia Amarela – amor secreto
  • Acácia Rosa ou Branca – Elegância
  • Alecrim – recordação
  • Almíscar – fraqueza
  • Amor-Perfeito – penso em você
  • Amaranto – imortalidade. Amor que nunca desaparecerá.
  • Amarílis – Orgulho. Beleza
  • Amêndoa – Esperança
  • Aquilégia  vermelha – Ansiosa e hesitante
  • Azaleia – Temperança
  • Azevinho – Visão do futuro
  • Babosa – Pesar
  • Beladona – Silêncio
  • Calêndula – Vulgaridade
  • Camélia Branca– Perfeito encanto
  • Camélia Vermelha – Excelência
  • Campânula– Constância
  • Campânula Branca– Gratidão
  • Camomila – Força na adversidade
  • Cedro – incorruptível
  • Cerejeira branca – decepção
  • Cicuta – tu serás minha morte
  • Copo-de-leite – Magnífica beleza
  • Cravo vermelho – ah, meu pobre coração!
  • Cravo rajado – recusa
  • Cravo amarelo – desprezo
  • Crisântemo Vermelho – eu amo
  • Crisântemo Branco – verdade
  • Crisântemo amarelo – Amor enfraquecido
  • Dália – instabilidade
  • Heliotrópio – Devoção e lealdade
  • Hibisco – beleza delicada
  • Hortelã – sentimentos calorosos
  • Jacinto branco – amabilidade sem impedimentos
  • Jasmim – amabilidade
  • Lavanda – desconfiança
  • Limoeiro, botões de – Fidelidade no amor
  • Lilás – Primeiras emoções do amor
  • Lilás branco – Inocência juvenil
  • Lírio branco – pureza, doçura
  • Lírio amarelo – falsidade
  • Lobélia – distinção
  • Lonicera – Afeição generosa e dedicada.
  • Louro, folhas de – “Mudarei apenas na morte”
  • Lótus – eloquência
  • Macieira – Preferência. Significa que o homem possui boa fama que o precede
  • Magnólia – amor pela natureza
  • Mandrágora – horror
  • Manjericão – ódio
  • Margarida selvagem – eu pensarei em ti
  • Margarida comum – inocência
  • Miosótis – amor verdadeiro, não me esqueça
  • Mirra – Alegria
  • Murta – amor
  • Narciso – egoísmo
  • Orquídeas – uma beldade
  • Pessegueiro, botões de – sou seu prisioneiro!
  • Prímula vermelha – Avareza
  • Romã – Tolice
  • Rosa branca – amor feliz
  • Rosa vermelha – beleza
  • Rosas enviadas diariamente – eu aspiro ao teu amor
  • Rosa solitária – simplicidade
  • Rosas, coroa de – recompensa pela virtude
  • Rosa amarela – amor em decadência, ciúme
  • Trevo de quatro folhas – seja meu!
  • Tulipa vermelha – declaração de amor
  • Valeriana – rompimento
  • Violeta azul – lealdade

Fonte:

GREENWAY, Kate. Language of Flowers. 1900.

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