Casa Vitoriana,  Destaque

(pt.1) Lavanderia Vitoriana: Roupas Brancas

Quando nós olhamos aqueles vestidos fabulosos nos museus e fashion plates da Era Vitoriana, é muito fácil esquecer que eles ficavam sujos, às vezes muito sujos. Eu não consigo pensar nisso sem sentir um arrepio. Só de imaginar ter que lavar um vestido vitoriano de veludo, com fibra de seda natural, eu já fico com medo! Hoje em dias nós lidamos com muito mais fibras sintéticas, que além de serem mais baratas, podem ser limpas e até substituídas com mais facilidade. Além disso, nós temos máquinas de lavar e as abençoadas lavanderias para nos salvar em casos de vestidos de festa e ternos! Mas isso está muito longe da realidade do século 19.

Vestido de jantar dos anos 1890 da Maison Worth, todo em veludo de seda natural. Pensa no desespero da criada com esse vestido voltando manchado de sopa.

SUSTENTABILIDADE VITORIANA

Um dos efeitos da industrialização é a ascensão do prêt-à-porter no século 20: ao invés de roupas sob medida, produzidas individualmente, temos muito mais roupas produzidas em escala, que nos esperam prontinhas na loja. Embora isso tenha afetado completamente o caimento das roupas (e ajudado na troca de fibras naturais por fibras sintéticas), também levou ao barateamento dos custos de produção. A consequência imediata disso é que nós temos muito mais roupas que os nossos ancestrais vitorianos – mas também descartamos essas roupas com muito mais frequência do que eles, gerando um problema imenso de lixo têxtil.

Como as roupas eram caras de serem produzidas, os vitorianos já praticavam moda sustentável antes de esse conceito existir. Reutilizar tecidos de peças antigas para novos estilos era algo que se fazia desde os séculos anteriores, até mesmo entre os mais ricos.

Esse vestido do início dos anos 1840 foi feito com uma seda bordada inglesa típica do final do século 18. De acordo com o Charleston Museum, que tem a guarda da peça, ainda é possível ver as marcas das costuras originais, que foram cuidadosamente desmontadas para a reforma.

Entre os mais pobres, comprar roupas de segunda ou terceira mão era uma prática comum e um dos motivos pelos quais vemos retratos populares com trajes de estilos que não são consistentes com a data da foto. Uma das explicações para isso é o fato de que muitas das roupas usadas pelas camadas mais pobres da população provinham de doações ou de brechós e eram roupas antigas e já gastas que representavam os estilos de décadas anteriores.

 

ROUPA DO CORPO

Um dos possíveis motivos de tantas roupas de tecidos finos terem sobrevivido em museus, muito mais do que as roupas íntimas, é o fato de que elas não eram lavadas com frequência. Para proteger a parte interna da roupa do suor e da oleosidade corporal, os vitorianos não colocavam seus trajes finos diretamente sobre o corpo. Chemises calçolas e outras peças de “roupa do corpo” absorviam o suor, os cheiros e eventuais fluidos do corpo, poupando os trajes externos. Outros pontos de contato da roupa exterior com o corpo, como punhos e golas, eram poupados através do uso de punhos e golas removíveis. Tanto a roupa íntima quanto os punhos e golas eram lavados com muito mais frequência que o restante dos trajes. No caso de famílias abastadas, isso significava que era possível trocar a roupa íntima quase que diariamente. Claro, a frequência dessa troca estava relacionada diretamente à condição financeira de cada família e até à capacidade das mulheres da casa de reciclarem lençóis velhos para transformar em roupa íntima.

Por serem feitas de tecidos claros e lisos e serem as mais sujas, as roupas íntimas não só eram lavadas com frequência, mas também submetidas a processos de lavagem muito mais agressivos. Talvez por isso pouca roupa íntima tenha sobrevivido até os dias atuais e muitas da que existem em museus são peças que foram pouco usadas por seus proprietários.

UM DIA NA LAVANDERIA VITORIANA

A maioria das casas vitorianas, à exceção das ricas, não tinham um cômodo específico para a lavagem das roupas. As atividades da lavanderia compartilhavam espaço e utensílios com a cozinha, motivo pelo qual o dia da lavagem das roupas precisava ser muito bem planejado.

A preparação começava pelo sabão. Enquanto as famílias ricas podiam comprar seu sabão industrializado, muitas casas, no campo e na cidade, preparavam seu próprio sabão a partir das sobras da cozinha. Sebo (bovino ou suíno) e soda cáustica caseira (produzida a partir das cinzas do próprio fogão) eram combinados em um processo longo e perigoso, que frequentemente afetava os olhos e a respiração das mulheres. Depois de feito o sabão, ele ainda precisava curtir/secar por até três meses, dependendo da umidade da região, antes de ser utilizado. Esse método com soda cáustica caseira produzia um sabão um pouco mais escuro e maleável que os industriais, produzidos com a soda industrializada.

Um dos sabões favoritos da Era Vitoriana, usado tanto na lavanderia quanto na cosmética, era o Castile Soap, no qual o sebo era substituído por azeite de oliva espanhol. Na Era Eduardiana, ele ainda era usado como ingrediente para shampoos caseiros, com a reputação de ser mais suave para a pele e cabelos do que o sabão comum.

Anúncio do Castile Soap, 1910

Uma prática comum do período era reservar a segunda-feira como dia para lavar as roupas, já que as tarefas da lavanderia em si poderiam começar na sábado, reunindo toda a roupa que seria lavada e procurar costuras desfeitas e rasgos, que poderiam ser fatais para a peça no momento da lavagem. O primeiro dia era todo dedicado a fazer estes pequenos consertos entre uma tarefa da casa e outra, já que nesse meio tempo havia todos os outros afazeres domésticos a serem atendidos também.

Era preciso também providenciar as tinas (de madeira, cobre ou estanho) para lavagem, água para ser fervida e, claro, lenha para manter o fogão aceso aquecendo a água. Nas casas menos abastadas, onde esse serviço de lavanderia era feito pela senhora da casa ou por uma criada, isso podia ser um problema. Nas cidades, era preciso ter uma fonte de água disponível no pátio da casa ou procurar um poço ou fonte pública. Dependendo da localização, era possível também lavar as roupas diretamente no rio ou até em grandes tanques públicos, mas a roupa delicada não poderia ser lavada dessa forma.

A lavagem da roupa era um processo longo, que envolvia muitas mãos. Nas casas mais humildes, a mãe e as filhas mais velhas se ocupavam do processo por dois ou três dias.

Pré-lavagem

Após os reparos, a roupa era separada por tipo de tecido e quantidade de sujeira. Cada tecido precisava ser lavado de um jeito diferente, considerando sua fibra e tipo de resíduo a ser removido.

No domingo à noite, a roupa de corpo e os lençóis eram colocados de molho em água morna com lascas de sabão. Cada peça precisava ser esfregada individualmente antes de passar a noite de molho.

Na segunda de manhã, era preciso acender o fogo e colocar a água para aquecer. Numa casa grande, onde haveria vários criados e um fogão grande, isso não causava problemas. Mas nas casas menores, com uma criada ou apenas com a mãe, isso também requeria um planejamento especial. No domingo à tarde já se deixava toda a comida de segunda pronta, optando por pratos que pudessem ser consumidos frios. O único espaço disponível no fogão seria para aquecer a água do chá, isso se a criada ou a mãe tivessem tempo!

 

O Dia da Lavagem

As primeiras roupas a serem lavadas eram sempre as peças mais delicadas e as menos sujas. Colarinhos e punhos removíveis, lenços e toucados eram geralmente os primeiros na lista. Por serem delicado

Na segunda-feira, a lavagem era feita em quatro etapas:

Primeira lavagem: lado externo das roupas era ensaboado e esfregado à mão. Depois do enxágue em água fria, cada peça era torcida, à mão ou com um torcedor mecânico.

Segunda lavagem: a água era trocada e o avesso das roupas passava pelo mesmo processo.

Fervura: as roupas de algodão e linho, desde que lisas, eram fervidas em água com sabão. Aí que morava o perigo: algumas vezes, para potencializar a lavagem, colocava-se soda cáustica diretamente nessa mistura. Debruçadas sobre a tina, as lavadeiras recebiam o vapor nos olhos, o que causava queimaduras e cegueira, além de lesões nos pulmões. As roupas lavadas eram retiradas da tina com pedaços de madeira e torcidas.

Enxágue: a etapa final, em água fria, para remover qualquer vestígio do sabão.

 

Torcedores mecânicos da Era Vitoriana

Química na Lavanderia

Com o desenvolvimento da indústria química, muitos compostos e substâncias foram disponibilizados no mercado para facilitar as tarefas domésticas. Alguns deles eram extremamente tóxicos, mas ainda assim vendidos livremente no Armazém, o equivalente vitoriano do mercadinho do bairro.

Alvejar as roupas brancas era algo necessário. A roupa branca bem branquinha era sinônimo de asseio e, no pensamento vitoriano, uma pessoa asseada era sinônimo de uma pessoa de bom caráter. Cada tecido exigia um tipo diferente de alvejante, alguns em uso até hoje.

Flanela Branca (usada em roupas íntimas de inverno, principalmente)

500g de sabão branco em lascas + 10ml de amônia, dissolvidos em 45l de água morna. Depois de dissolver bem, a mistura precisava esfriar até temperatura ambiente para não encolher as roupas. As peças eram então colocadas na água e mexidas com uma vareta durante cerca de 10min, para depois serem enxaguadas em água fresca.

Em muitas casas, o trabalho de lavanderia acontecia na cozinha, em meio aos outros afazeres da casa. Foto de 1855.

AlgodãoAlguns livros da época aconselhavam deixar estas peças de molho em buttermilk/leitelho na noite anterior, ao invés de água.  Porém, isso nem sempre era o suficiente, pois os sabões da época costumavam deixar um tom amarelado na roupa.

Uma das técnicas para isso incluía utilizar corante azul na água das lavagens e enxágues, para garantir um tom de branco intenso nas roupas. Menos agressiva, esta técnica era utilizada com colarinhos, golas e até com alguns vestidos brancos de algodão ou linho.

Bicarbonato de sódio também era usado como um agente para soltar a sujeira mais teimosa das fibras. Uma outra possibilidade era adicionar terebintina na água da primeira da lavagem, mas isso não era exatamente seguro. Além de ser inflamável, quando inalada a terebintina pode causar danos ao sistema nervoso e levar à falência renal. Se nossa lavadeira não tirasse completamente o químico nas duas primeiras etapas da lavagem, havia grande chances de restos de terebintina serem fervidos com a roupa e inalados.

Para quem tinha espaço disponível (um luxo nas grandes cidades industriais), era ainda possível quarar a roupa. Cada peça era bem ensaboada numa mistura de sabão e bicarbonato de sódio e deixada ao sol para clarear. Essa era uma prática muito comum aqui no Brasil ainda no século 20, inclusive.

Anúncio do “laundry blue”, a tintura azul usada no clareamento da roupa branca.

Linho

O sabão era dissolvido em água morna e a mistura recebia bórax/borato de sódio. Aconselhava-se um punhado de pó de bórax para cada 35l de água, mas a quantidade de bórax podia ser aumentada para lavar colarinhos e rendas com fios de linho sem danificar as fibras.

Musselinas

Tecido delicado por natureza, as musselinas eram usadas nos toucados das mulheres ricas, bem como nas mangas removíveis e em algumas anáguas e vestidos. Sua lavagem era uma operação igualmente delicada: num saco de tecido, misturava-se farelo de trigo com sal e esse saco era fervido em água por 1h30min. As peças de musselina eram lavadas com esta água já em temperatura ambiente e, no lugar do sabão, o saquinho era usado para esfregar delicadamente a roupa.

Depois que a roupa branca estava lavada, a parte mais cansativa da lavagem estava finalizada. Era preciso passar as roupas uma última vez pelo torcedor e colocá-las para secar em varais, sobre os arbustos ou até na grama, se você tivesse espaço. Nas casas pobres, que muitas vezes tinham apenas um ou dois cômodos, as roupas eram penduradas dentro de casa em varais improvisados.

As roupas coloridas eram lavadas de formas menos extenuantes e muitas delas nem sequer eram colocadas de molho para a lavagem. Mas vamos falar sobre isso no próximo artigo 😉

As casas muito ricas (pense Downton Abbey) podiam ser dar ao luxo de ter um cômodo para a lavanderia e torcedores mecânicos grandes. Mas isso não eliminava as outras partes da lavagem, como a fervura e os enxágues manuais.

FONTES

“How to Be a Victorian” (Ruth Goodman)

“The Hearthstone, or Life at Home: A Household Manual” (Laura C. Holloway, 1883)

 


GOSTOU DESSE ARTIGO?

 Então que tal me ajudar a produzir ainda mais conteúdo de qualidade?

 

Seja um padrinho d’A Modista do Desterro e ajude a manter o blog com conteúdos exclusivos <3

 

COMENTÁRIOS

Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »