Casa Vitoriana

Lavanderia Vitoriana (pt.2): Algodão Estampado

No nosso último post sobre a lavanderia vitoriana falamos sobre os cuidados com a roupa branca, que sofria com a lavagem mais intensa e frequente. Hoje nós vamos conhecer alguns segredos vitorianos para cuidar de um dos tecidos mais populares da época: o algodão estampado.

 

Algodão: a fibra vitoriana por excelência

O algodão é uma fibra de origem algodão que chegou com força ao mercado europeu no século 18, mas se estabeleceu em definitivo na Era Vitoriana. Boa parte da riqueza da Inglaterra estava ancorada na indústria têxtil, que exportava tecidos de lã e de algodão para o mundo todo (mas tinha sérios problemas para competir com a seda francesa). A lã era produzida dentro do próprio Reino Unido, onde grandes rebanhos de ovelha se multiplicavam nos campos da Escócia ao País de Gales. Já o algodão, por ser uma planta tropical, vinha de fora: as grandes lavouras de algodão do sul dos Estados Unidos, mantidas com mão-de-obra escrava até os anos 1860 e em condições semelhantes à escravidão depois disso, alimentavam a indústria têxtil inglesa. Mas, além de produzir os tecidos de algodão, as indústrias inglesas também aperfeiçoaram as técnicas de tingimento e estamparia, algumas das quais foram roubadas…dos indianos! Assim, no século 19, a Inglaterra era a maior produtora de tecidos de algodão do mundo e ajudou a consolidar esses tecidos como os mais populares dos anos 1800.

1880s algodão estampado moda vitoriana
Um típico vestido de algodão estampado da Era Vitoriana. Acervo do Victoria & Albert Museum.

Havia vários tipos de tecidos de algodão e em diferentes faixas de preço, o que ajudou a fazer com que o algodão e a lã formassem a base do guarda-roupa desde os operários até a classe média. Além de baratos, os tecidos de algodão podiam ser tingidos em casa quando estivessem desbotados, mas isso era algo a ser evitado – e o segredo estava na lavagem.

Em primeiro lugar, o algodão estampado jamais poderia ser lavado em água quente, nem ser esfregado diretamente com sabão. Uma edição de 1856 da Godey’s Ladies’ Magazine, uma das revistas femininas mais populares do século 19, aconselhava que lascas de sabão fossem fervidas com água limpa e, quando a mistura estivesse em temperatura ambiente, se acrescentasse um punhado de sal e só depois a peça de roupa fosse colocada de molho.  Depois do molho (que não deveria ser muito longo para não desbotar a estampa), a roupa deveria ser lavada duas vezes com água pura e fria e colocada para secar à sombra, da maneira mais aberta possível. As dobras deviam ser evitadas na hora de pôr a roupa para secar, pois a tinta de um lado poderia manchar o outro! Isso era particularmente importante em tecidos de fundo branco estampados com azul e vermelho.

Página de um livro de amostras de tecidos de algodão de 1825.
Livros como esse eram produzidos pelas fábricas e enviados como catálogos para lojas e caixeiros viajantes.

 

Dicas & Cuidados de Lavagem

O Workwoman’s Guide (1840) traz várias sugestões para lidar com manchas em tecidos de algodão estampado:

Para remover manchas de vinho, uma receita simples e eficaz que eu já testei em casa: colocar sal de cozinha imediatamente sobre a área suja e depois lavar em água corrente. Funciona melhor com manchas recentes.

Para remover manchas de mofo, do tipo que aparecem em roupas que ficaram muito tempo guardadas: misturar, sabão, amido, sal e limão até formar uma pasta que deveria ser aplicada sobre a área mofada. A roupa seria então colocada na grama durante um dia e uma noite e depois lavado em água limpa.

Para lavar algodão tingido sem desbotar, o livro aconselha uma mistura curiosa: colocar duas ou três batatas cruas raladas em uma panela com água, passar essa mistura por uma peneira e deixar descansando até o amido da batata assentar no fundo. Depois, deveria-se embeber uma esponja na parte limpa do líquido, que ficaria por cima do amido,  e lavar delicadamente as partes manchadas ou sujas.  Ah, uma outra curiosidade: as batatas raladas que sobrassem eram usadas para lavar tapetes e cortinas!

Vestido americano dos anos 1850 em musselina de algodão estampada

Para fixar a cor em tecidos que soltam tinta, o livro aconselhava um pouco de álcool na água do molho e na água do enxágue. Se o tecido tivesse tons de lilás ou verde, pó de pérolas era adicionado à água para reavivar uma cor já desbotada.

Uma outra opção para manter a cor dos tecidos de algodão era, no final da lavagem, enxaguar a peça com água de arroz. A água de arroz era obtida fervendo-se arroz em água limpa por alguns minutos e só deveria ser usada depois de fria.

Para lavar tecidos de algodão a seco, a criada vitoriana usava pedaços de pão velho, já impróprios para consumo, que eram esfregados de leve no tecido para absorver a poeira e a sujeira. Esse truque também era usado para limpar sofás, poltronas e almofadas.

Uma das coisas mais importantes para garantir a saúde do algodão estampado era delicadeza. De acordo com o Workwoman’s Guide, o algodão deveria ser lavado de forma suave, com poucos movimentos, para evitar não só que desbotasse, mas também que encolhesse.

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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