A Modista do Desterro – Pauline Kisner

J. Carlos, um ilustrador das ruas do Rio nos loucos anos 1920

O artigo de hoje foi um presente incrível que a Kati, do blog Roupa é Cultura, me enviou. Foi através dela que conheci o trabalho do J. Carlos, um ilustrador/chargista/letrista de samba do início do século 20 que registrou em sua arte o nascimento das melindrosas cariocas. Vamos dar as boas-vindas à Kati e ao primeiro de alguns colabs que estão vindo por aí!

Muitas vezes acreditamos que, até a metade do século 20, o mundo era preto e branco. Esta falsa impressão vêm dos registros fotográficos, feitos quando as técnicas de impressão em cores ainda eram limitadas. Contudo, preciso dizer que o mundo era colorido nas roupas, na paisagem…e nas ilustrações.

São famosas as capas de revistas dos anos 1920 com impressão colorida, como a Vogue, Vanity Fair e Harper’s Bazaar. Por algum tempo, acreditei que estes títulos estrangeiros eram os mais importantes pioneiros da estética art déco nas artes gráficas e na moda, até que conheci J. Carlos e suas ilustrações para a Revista Paratodos.

O ilustrador José Carlos de Brito e Cunha, ou simplesmente J.Carlos (1884-1950), figurou na vanguarda nacional do movimento art-déco desenhando capas para a revista Paratodos (e numerosas outras revistas), entre 1926 e 1931. Suas capas rompem com o modelo anterior de reproduzir retratos de beldades femininas, dando lugar a desenhos com variada escala de cores, diversidade temática e figuras ousadas, abertas a significados.

J. Carlos em seu estúdio, por volta de 1920. Fonte: Wikimedia Commons.

Para isso, J. Carlos muitas vezes fez uso da fantasia, remetendo a imagens oníricas e delirantes, influenciado pela corrente orientalista do art-déco. Além disso, a presença de tonalidades brilhantes, elementos abstratos e repetição de padrões, em meio a planos bem definidos e volumetria são cenários constantes, refletindo a efervescência da era moderna.

Tatuagem e poucas roupas: a sensualidade na ilustração de J. Carlos aliada à estética art déco surge numa fase de transições de comportamento no Rio de Janeiro.
Revista Para Todos, 22 de maio de 1926.

Carlos também retratava os “anos loucos do jazz” por meio de figuras urbanas surgidas no pós 1ª Guerra Mundial, como a melindrosa e o almofadinha. Os cenários eram frequentemente recortes estilizados das paisagens tropicais e manifestações culturais do Rio de Janeiro, como o Carnaval.

Na revista Para Todos, a figura principal das capas é a melindrosa, a flapper carioca. A melindrosa retrata a mulher moderna dos anos 1920 e seus novos valores: liberdade de vestuário, de comportamento e capacidade de consumo.

A estética orientalista se manifesta na exuberância do traje e novamente com o recurso da sensualidade.
Revista Para Todos, 25 de setembro de 1926

A melindrosa de J. Carlos vai à praia tomar um bronzeado e ainda mergulha de maiô (pense que este maiô era bem mais comprido que os atuais, mas um escândalo para a geração anterior que se molhava de vestido). A melindrosa também vai às compras sozinha, de chapéu cloche e saias mais curtas mostrando os joelhos, e pula os quatro dias de Carnaval em meio aos foliões. Na verdade, ela mimetiza o modo de vida das cariocas de classe média e alta da década, dos arredores de Copacabana, que passam a valorizar a vida ao ar livre, da prática de esportes, integração em clubes sociais e ao consumo de moda, tudo isso ainda atrelado aos novos modelos europeus.

Ou seja: atrevimentos.

De ressaca em pleno outubro. Repare nos volumes e cores das taças de fundo, traço característico do art-déco.
Paratodos, 22 de outubro de 1927.

Note como esta figura quebra os laços definitivamente com as formalidades que envolviam a dama da Belle Époque da década anterior: a carioca eduardiana, casta e coberta até os punhos e tornozelos com longos vestidos e fartos cabelos, inseparável de sua sombrinha para proteger a pele do sol.

A melindrosa se diverte no mar.
Paratodos, 14 de janeiro de 1928.

Já a figura masculina muitas vezes é representada como alguém seduzido ou a serviço da mulher. Esse recurso é utilizado reduzindo a escala das figuras masculinas – pequeninas em contraposição à mulher em primeiro plano. Quando não é adotada a imagem do típico “almofadinha”, a figura masculina é representada por seres lendários como gárgulas, cupidos e bobos da corte (leia um mestrado ótimo sobre isso aqui).

A melindrosa caminha soberana e arrasta multidões de almofadinhas (e outros mais velhos)
Revista Paratodos, 26 de abril de 1927.
Saias na altura dos joelhos, carteira nas mãos, homens aos pés dela. Sedução, consumo, ou poder? Talvez apenas humor? Revista Paratodos, 26 de junho de 1926.

Ao observar as capas de J. Carlos uma a uma (acredite, isto é um deleite para os olhos!), noto uma referência curiosa. Algo me diz que o cartunista, sempre alerta aos movimentos artísticos e culturais que abalavam o mundo, não pôde passar despercebido ao fenômeno Josephine Baker.

Josephine Baker, cerca de 1925, em seu traje mais icônico: o cacho de bananas.

A negra americana que dançava trajada com cachos de bananas nos palcos europeus, era a figura extrema da liberação feminina dos anos 1920. Noto que Josephine pode ter sido a inspiração para mais uma capa marcante, publicada em julho de 1927. A dançarina não era figura desconhecida por aqui, pois foi citada algumas vezes na revista entre 1927 e 1930.

O almofadinha estupefato com a melindrosa. Ou Josephine Baker?
Paratodos, 02 de julho de 1927.

A partir da década de 1930, J.Carlos flerta ainda com outros estilos, eventualmente migrando para uma economia de traços, e com a redução gradual da paleta de cores, da repetição de padrões e da profusão de personagens. A melindrosa e sua exuberância vão lentamente se retirando de cena, com a figura feminina assumindo formas mais singelas.

Somem os brilhos…
Paratodos, 27 de junho de 1931

Entendo que este pode ser um reflexo da Grande Depressão de 1929 e da resposta social à falência de diversas empresas no mundo todo: a queda do consumo e opulência dos anos 1920 e a penúria de diversas camadas da população. Na virada de 1930 para 1931, J.Carlos faz duas capas bastante críticas destacando a falta de empregos e pobreza, sem perder, contanto, o humor.

Carlos produziu uma obra extensa e com variedade temática e estilística até os anos 1950, sendo inclusive convidado por Walt Disney para trabalhar nos Estados Unidos (ó!).

Espero que até aqui eu tenha te convencido que: 1) sim, o Brasil possuiu ilustradores tão ou mais talentosos que os da Vogue ou Vanity Fair; 2) que a obra de J. Carlos tem diversos outros caminhos inusitados a explorar além destes neste texto; e 3) que J. Carlos deve ser lembrado como um ícone da ilustração e design gráfico, por retratar de maneira humorada e festiva os costumes e a moda do Rio de Janeiro dos anos 1920!

Para saber um pouco mais, te convido a assistir o documentário “J. Carlos – A figura da capa”, realizado pela família de J.Carlos e disponível no Youtube:

Referências bibliográficas

Carlos em revista. Acervo eletrônico das revistas Paratodos e O Malho, 2011: http://www.jotacarlos.org/revista/

Alencastro, L.S. Revista “para todos…” um estudo da imagem da mulher nas ilustrações de J.Carlos. 2013.157 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Linguagens) – Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2013.

ALENCASTRO, L.S. Revista “Para Todos…”: uma história de Carnaval. Tuiuti: Ciência e Cultura, n. 46, p. 215-232, Curitiba, 2013.

ALENCASTRO, L.S. Figuras em revista: a imagem desenhada conta a história. Encontro Nacional de História da Mídia (maio/junho de 2013). Ouro Preto. Minas Gerais. Disponível em: http://lucilia.art.br/wp-content/uploads/2018/01/gt_Midia_Impressa_Lucilia_Alencastro-1.pdf

Hemeroteca Digital Brasileira. Periódico “Para Todos.”: Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/para_todos/anuario_para_todos.htm. Acesso em: 13 mar. 2019.

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