Costura Histórica

Hussif, o kit de costura do século 18 e 19

Com o fim das aulas, porém não do ano letivo, tenho algumas janelas no meu horário e estou aproveitando para colocar em dia as peças do Traje Brasilis que estavam atrasadas. Desde a semana passada estou trabalhando numa chemise de algodão feita 100% à mão, seguindo a modelagem e as técnicas da época. Costurar à mão é muito bom e é uma coisa que dá pra fazer tranquilamente fora de casa, porque precisa de uma estrutura mínima: um kit básico de costura, com agulha + tesourinha + linha e alguns alfinetes, já é o suficiente. Mas eu precisava de uma maneira fácil, prática e compacta de transportar essas coisas comigo e aí pensei por que não fazer um hussif?

O hussif era um kit de costura compacto e básico, carregado principalmente por soldados, marinheiros e viajantes do século 18 e 19. Ele era um kit de reparos rápidos e continha coisas como linha, agulha, tesoura, alfinetes, cêra para fortalecer a linha, às vezes um dedal, botões… tudo o que seria necessário para que a própria pessoa fizesse consertos em suas roupas. O nome hussif é uma corruptela de housewife (esposa ou dona-de-casa), o que nos dá realmente uma ideia de como esse kit era meio que um substituto de emergência para homens solteiros ou longe de casa, que não contavam com o trabalho das mulheres da família nas tarefas de costura.

hussif é uma peça muito simples. Ele é basicamente um retângulo longo com divisória e um alfineteiro, que você enrola e amarra. Os mais comuns eram feitos de retalhos de lã e algodão, mas existem alguns exemplos de seda, que sugerem que não era uma peça usada apenas pelas camadas mais pobres da população. Essa peça americana dos anos 1780 é um bom exemplo:

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Existem outros mais simples também e até meio tortos, o que sugere que tenham sido feitos por crianças aprendendo a costurar ou por pessoas sem muita habilidade com o negócio (um soldado, talvez?). Esse é um exemplar inglês também dos anos 1780:

Dá pra encontrar também alguns modelos mais elaborados. Esse aqui é uma peça suíça e um exemplo muito raro do início do século 18, feito em linho quiltado e com acabamento interno em renda de bilro:

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FAZENDO MEU HUSSIF

Fiel ao espírito de reaproveitamento dos séculos passados, revirei minha sacola de retalhos à procura de pedaços que pudessem dar vida ao meu hussif. Acabei encontrando um algodão estampado com carinha de vintage, sobra de um panier, e uma sarja bordô que formaram uma paleta interessante. Usei o algodão como base e fui costurando os bolsos e divisórias em cima, tudo à mão. Como muitas peças da época eram bordadas com monogramas que identificavam o proprietário, resolvi monogramar minhas iniciais de uma maneira bem pouco discreta. Como as letras ficaram meio que flutuando nos bolsinhos, fiz mais alguns bordados com ponto cadeia só para deixar o negócio mais equilibrado:

O primeiro bolso é para guardar minha tesoura de arremate. O segundo tem duas divisórias, que podem ser usadas para guardar linhas ou botões. No terceiro bolso eu guardo minha cêra de abelha (já falei sobre os benefícios dela aqui). Transformei o último espaço de um agulheiro. No século 18 e 19 era comum fazer encher o agulheiro com areia grossa, para ajudar a manter o fio das agulhas e alfinetes. Eu fiquei com medo da sujeira, então enchi com fibra de almofada mesmo, bem compactada.

Embora a maior parte dos hussifs tenha o acabamento feito com viés ou fita de linho, eu não tinha mais tecido para isso, então resolvi dobrar as pontas por cima das bordas dos bolsos. Como eu fiz a peça correndo, o cuidado com os pontos ficou muito a desejar:

As costas são perfeitamente lisas:

E ele fica super compacto quando enrolado:

Para decoração, apliquei três botões temáticos na frente:

O alfineteiro de tomate é uma adição temporária, porque estou usando muitos alfinetes, e uma homenagem à Era Vitoriana, já que esse tipo de alfineteiro é típico do século 19 e estava relacionado à ideia de que um tomate no enxoval ajudava a proteger a casa contra o mal.

Esse é um daqueles projetos fáceis e gostosos de fazer e muito bons para quem está começando na costura de uma forma geral, não só na histórica. Então vou deixar aqui um diagrama com as medidas do meu molde e quem sabe você se inspire para fazer seu próprio hussif nas férias?

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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