Higiene

Higiene Pessoal na Era Vitoriana

Embora o senso comum costume pensar nos séculos anteriores como sujos e mal-cheirosos, a Era Vitoriana trouxe uma série de inovações em termos de higiene e saúde.

No século 18, acreditava-se que as doenças eram transmitidas através de “maus ares”, chamados então de miasmasque entravam pelos poros. Por isso buscava-se cobrir ao máximo o corpo e banhos, especialmente os de imersão, eram desencorajados por supostamente abrirem os poros para as doenças.

No século 19, começam a se desenvolver outras teorias para explicar as doenças, dentre elas o descobrimento de bactérias. A Medicina também começa a relacionar as doenças à falta de higiene, às casas cujas janelas sempre fechadas não permitiam a renovação do ar… É justamente nesse período que se desenvolvem as indústrias de sabonete e a cosmética conhece seu primeiro grande boom.

 

HIGIENE MATINAL

Do palacete mais refinado à casa mais humilde, a lavagem matinal era o primeiro passo na rotina de cuidados pessoais de um indivíduo na Era Vitoriana. Essa lavagem era feita dentro do próprio quarto, pela própria pessoa, logo ao levantar. Para os mais ricos, a lavagem matinal incluía água quente trazida pelos criados; entre os mais pobres, a água era trazida na noite anterior ou de manhã bem cedo pela mãe da família.

A lavagem matinal era feita com uma bacia pequena, um penico, uma jarra, sabão e um pedaço de flanela. Esses objetos ficavam em cima de uma mesa ou em cima de um móvel específico, o washstand:

Washstand em madeira, em estilo típico do fim do século 19

Nesse ponto, o que mais diferenciava os ricos e os pobres era a qualidade dos móveis e das peças envolvidas na lavagem. Uma casa abastada teria conjuntos de porcelana pintados à mão, enquanto uma casa de uma família de operários teria um conjunto esmaltado simples (como aquelas xícaras do vovô, sabe?) ou de cerâmica, provavelmente já danificado e consertado várias vezes.

Essa higiene matinal permitia que se limpasse o corpo por partes, algo muito importante no rigoroso inverno britânico. Uma vez terminada a lavagem, a água podia ser descartada no penico e depois despejada fora de casa.

Os banhos de imersão eram uma prática muito mais disseminada entre a elite e com uma frequência menor do que as nossas duchas. Quem dispunha de uma banheira não a usava mais do que uma vez na semana.

“Mulher fazendo sua toilette”, de Mary Cassat (década de 1890)

Os Sabonetes Vitorianos

Os sabonetes da época tinham como um dos principais componentes o ácido carbólico, que hoje já não é mais empregado na indústria saboeira, mas que dava aos sabonetes um odor característico, que ficava na pele após a lavagem matinal. Mesmo para as pessoas que não podiam pagar por perfumes, esse odor acabava sendo um indicativo de limpeza, de higiene e de certa distinção.

 

Ter uma higiene corporal adequada se tornou mais uma forma de diferenciação social na Inglaterra vitoriana. Uma família de classe média consumiria de três a quatro barras de 115g por semana, para higiene corporal, lavagem de roupas e limpeza doméstica. Mas cada uma dessas barras atingia o mesmo preço que 1kg de carne de 1ª! Mesmo no fim do século XIX, quando a produção de foi refinada e os preços caíram um pouco, o consumo de sabonete por família poderia comprometer até 5% do rendimento semanal da casa. Por isso o “cheirinho de sabonete” também era um divisor de posições sociais. 

Receita de Sabonete Vitoriano (Extraída do livro “Beeton’s Dictionary of Practical  Recipes and Every-Day Information”, de 1870): Tome 6 libras de soda cáustica, 6 libras de gordura animal, 3 libras de cal e 4 galões de água. Leve a soda, a cal e a água à fervura. Adicione a gordura e ferva por mais 30 minutos. Deixe esfriar em uma forma e, depois de frio, corte em porções menores.

 

Áreas “problemáticas”

Para prevenir odores indesejados, áreas como as axilas podiam ser limpas com um pano embebido em amônia ou vinagre. Para a região do pescoço também se utilizava, além daquelas duas substâncias, talcos levemente perfumados.

 

HIGIENE DENTAL

As escovas de dente vitorianas eram bem parecidas com as atuais em formato, mas eram normalmente feitas de madeira, com cerdas de crina de pôneis. Aquilo que chamamos de creme dental era então chamado de “dentifrício”. A maioria delas era preparada em casa, embora pudessem ser compradas em boticários e outras lojas, com ingredientes que tinham função puramente abrasiva. Receitas da época incluem pó de choco (um molusco), mirra, giz, pó de coral, cravo, canela e vinho!

Propaganda de Pó de Toilette do começo do século XX. A prática do talco permanecia.

 

Dentifrício de arnica, 1906

HIGIENE ÍNTIMA

No final do século XIX, já era possível comprar absorventes industrializados diretamente na loja ou através do correio. No entanto, o formato deles era um pouquinho diferente dos que conhecemos hoje. Esse cinto era colocado em volta da cintura para sustentar um absorvente feito reutilizável, que ficava preso aos clips como uma meia presa à cinta:

Os absorventes podiam ser feitos de algodão (um tecido barato e acessível para todas as classes sociais) ou em lã, como essas peças norueguesas:

Embora o conceito de absorventes reutilizáveis e laváveis possa parecer ofensivo à nossa noção de higiene, esse tipo de absorvente esteve em uso até a década de 1970.

 

Fonte: “How to be a Victorian”, de Ruth Goodman.

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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