Costura Histórica,  Etiqueta

A Harmonia das Cores nos Vestidos (1883)

As cores costumam ser um problema quando falamos em trajes históricos. Dependendo da época, não só os tons de cores que existiam eram completamente diferentes do que temos hoje em dia, mas a harmonia das cores também era pensada de uma outra maneira. Roxo e vermelho, não formam uma combinação óbvia, do tipo que a gente pensa imediatamente, nos dias de hoje; mas ela estava presente na moda medieval, por exemplo.

Uma das maneiras de entender as noções de harmonia das cores, e até dos significados delas, é procurar textos originais de cada época falando sobre o assunto. Foi assim que acabei esbarrando nesse texto de um livro de etiqueta de 1883, dando dicas preciosas sobre como escolher e harmonizar cores:

 

A seleção e arranjo correto das cores, de modo que elas produzam a mais agradável harmonia, é um dos requisitos mais desejados em um vestido. Sir Joshua Reynolds diz: “A cor é a ultima marca da excelência em qualquer escola artística.! O mesmo pode ser dito em relação à arte de escolher cores para a vestimenta. Contudo, é a primeira coisa que deve ter nossa atenção e estudo.

Nós usamos cores vivas em crianças pequenas; vestimos nossas jovens em tons delicados e claros; uma matrona ainda jovem está certa em adotar os tons quentes que vemos nas folhas de outono, enquanto preto e tons neutros são declaradamente apropriados às idosas.

Vestido de jantar da Maison Worth, 1883. Museu de Belas Artes de Boston, Estados Unidos.

Uma cor deve predominar no vestido; e se outra for adotada, deve ser em quantidade limitada e apenas para usos de contraste e harmonia. Alguma cores nunca devem, sob qualquer circunstância, ser usadas juntas, porque produzem um desacordo para os olhos. Se o vestido é azul, vermelho jamais deve ser introduzido nas decorações e vice-versa. Vermelho e azul, vermelho e amarelo, azul e amarelo, bordô e vermelho escarlate nunca devem estar unidos no mesmo trajes. Se o vestido for vermelho, um pouco de verde pode ser introduzido; se for azul, laranja; se verde, bordô. Vermelho escarlate e solferino são inimigos mortais, matando-se quando juntos.

Vestido de passeio em algodão, 1883. Museu Victoria & Albert, Inglaterra.

Duas cores contrastantes, como vermelho e verde, não devem ser usados na mesma quantidade, já que ambas são fortes e podem dividir e distrair a atenção. Quando duas cores forem usadas na mesma proporção, uma delas deve ser neutra, como cinza ou bege. Preto pode ser usado com qualquer cor, embora seja melhor com os tons claros. Branco também pode ser usado com qualquer cor, embora fique melhor com os tons escuros. Portanto branco e bordô, preto e rosa criam contrastes melhores do que branco e rosa e preto e bordô.  O bege, sendo uma cor entre preto e branco, pode ser combinada com qualquer outra cor.

Vestido de dama de honra, 1883. Museu de Ciências e Artes Aplicadas, Austrália

Uma pessoa de pele clara e delicada deve sempre usar as cores mais delicadas, como azul-claro, malva e verde-ervilha. Uma morena exige cores vivas, como escarlate e laranja, para despertar o brilho de sua pele. Um rosto avermelhado e com cabelos ruivos pede azul.

Cabelos negros têm sua cor enaltecida por escarlate, laranja ou branco e podem ser enfeitados com diamantes e pérolas. 

Castanhos devem usar azul claro, ou escuro em menor quantidade.

Se o cabelo não tem uma cor rica, um amarelo-esverdeado pálido produzirá um reflexo que disfarçará isso.

Cabelos castanhos claros requerem azul, e abrem espaço para as combinações com dourado.

Cabelos dourados ou amarelos precisam de azul e sua beleza é realçada pela adição de pérolas ou flores brancas.

Cabelos ruivos, se puxando para o vermelho escuro, precisam de escarlate. Se o vermelho for aberto ou alaranjado, azul, verde, púrpura ou preto criarão a ilusão de um vermelho mais fechado. 

 

Traje de Visitas, 1883-1884. Albany Institute, Estados Unidos.

Extraído de YOUNG, John H. Our Deportment: Or the Manners, Conduct and Dress of the Most Refined Society. Chicago, 1883.

COMENTÁRIOS

Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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