Costura Histórica,  Duquesa de Cadaval (1816)

Gola Rufo (1816)

Eu sei que quando alguém fala em “gola rufo”, a maioria de vocês deve pensar em algo assim:

Retrato holandês do século 17

MAAAS

Elas também aparecem em versões mais delicadas e menos rígidas em vários retratos da Regência. Como uma das peças que faz parte do traje da Duquesa de Cadaval é uma gola rufo branca, resolvi começar o traje dela justamente por aí. Por ser uma peça pequena, achei que seria um bom projeto inicial e que poderia ser totalmente feita à mão. Quem me acompanha no instagram já viu uma prévia do resultado, mas hoje vou falar sobre o processo todo.

 

GOLA RUFO PARA TODOS OS GOSTOS

Para fazer a gola rufo, comecei pelo básico: referências visuais. Esse tipo de gola aparece com frequência em vários retratos e ilustrações de moda do período e com uma certa variedade de modelos e nomes:  frills betsies são alguns dos nomes que aparecem nas fontes inglesas da época; cherusse e fraise aparecem no francês.

A gola rufo da época da Regência não obedece a um padrão em termos de construção. Há golas feitas apenas com algodão ou linho franzido. Outras são decoradas com rendas ou feitas inteiramente de renda. Há as golas presas à chemisette e há aquelas que são removíveis. Estas últimas foram as que mais me interessaram.

Alguns exemplos de gola rufo em retratos da época:

“Lady Elgin”, (François Gérard, 1804)

 

Caroline Bonaparte (Robert Lefebvre, 1813)

 

Mary Campbell Stuart (Gilbert Stuart, 1815)

 

Maria Teran de Amoros (Agustin Esteve y Marques, 1807)

RUFOS REMOVÍVEIS

Gostei bastante da ideia de um rufo removível, independente da chemisette, para ganhar mais possibilidades de combinações. Então comecei a pesquisar por aí e encontrei um modelo interessante no National Trust:

De acordo com a descrição, a peça é feita de duas tiras de organdie franzidas e costuradas em uma faixa do mesmo tecido. É impossível encontrar organdie em Florianópolis, muito menos qualquer tecido de linho ou algodão tão leve assim. Com os algodões que tenho disponíveis por aqui, esse modelo não serviria.

Foi então que encontrei um tutorial no blog Kleidung um 1800 (inglês/alemão), que me deu toda uma nova ideia sobre a construção da gola rufo. Não sei se é um método historicamente correto, mas fiquei até bem satisfeita com o resultado, que é pelo menos “historicamente passável”.

 

CONSTRUÇÃO

A partir do tutorial, desenhei um molde assim:

Cortei 2x esse molde no algodão mais leve que eu tinha em casa (uma sobra) e comecei fazendo todo o arremate das bordas com uma bainha enrolada. Depois coloquei uma parte sobre a outra, marquei aquela canaleta de 3cm do meio e passei duas costuras à mão para formar a canaleta, deixando as pontas abertas. Então apliquei, também à mão, uma renda branca bem estreita, só para dar um efeito mais…fofo.

Para deixar o meio da gola rufo mais estruturado, cortei uma fita de gorgurão um pouco maior do que a medida do meu pescoço e fui passando pela canaleta do meio com a ajuda de um alfinete de segurança. Isso já foi franzindo o tecido e começando a criar as ondas características do rufo.

Para finalizar, costurei as bordas da fita de gorgurão para deixá-la bem firme dentro da canaleta e fechei as bordas. Depois, costurei duas fitas de cetim nº 1, para fechar o gola com um laço bem delicado. Esse foi o resultado, depois de uma engomadinha de leve:

Depois de engomar descobri vários fiozinhos soltos e teimosos por ali

E, por mais exagerado que pareça, acho que ele até  funciona com a chemisette, dentro do conceito estético da época (será?):

 

ADAPTANDO

Apesar de eu ter feito a minha gola rufo à mão, você pode perfeitamente fazer a sua à máquina. Mas, se você quiser fazer a costura histórica raiz, aqui tem um artigo sobre os principais pontos de mão que você pode usar.

Substituir a fita de gorgurão por um elástico também é uma boa opção e pode ser até mais fácil e confortável de vestir. Nesse caso, você pode trocar a fitinha de cetim por ganchinhos, botões ou até por um broche. Essa última opção eu acho particularmente fofa.

Experimente também trabalhar com outros tecidos e cores. Lembre-se que a diversão é tão ou mais importante que a acuracidade histórica!

Fazendo a phyna antes de sair para o trabalho. Eu só não fui dar aula assim porque (ainda) não sou tão desapegada, hahahahahaa

 


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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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