A Modista do Desterro – Pauline Kisner

Uma duquesa de luto no Brasil (1816)

No finalzinho da última live (23.06) fiz uma enquete rápida com os seguidores da página para decidir qual seria o primeiro traje (e tema) a ser desenvolvido no projeto Memento Mori. Só deu Regência. E como a voz do povo é a voz dos deuses, vamos de Regência com um toque brasileiro: hora de começar a falar sobre o luto no Brasil Joanino.

D. Maria I em 1782

Lembra das aulas de História sobre a fuga transferência da Corte Portuguesa para o Brasil em 1808, fugindo de uma invasão napoleônica? O período entre a chegada da Corte (1808) e o retorno de D. João VI a Portugal (1821) é chamado de Brasil Joanino. E olha que muita água rolou na história do Brasil nesse meio tempo: nossos portos foram abertos para o comércio com a Inglaterra, o Brasil deixou de ser oficialmente colônia e ganhou banco, biblioteca, jardim botânico, imprensa, a Missão Artística Francesa (que vai ser muito útil nessa etapa do projeto) e uma rainha louca que morreu do lado errado do Oceano Atlântico.

Quando a Corte Portuguesa chega ao Brasil, Portugal era governado por D. Maria I, que ficou conhecida como “A Louca”. Devido à sua instabilidade mental, seu filho D. João foi declarado Príncipe Regente e passou a ser o governante de facto do Império Português. Foi na mão dele que caiu a batata quente de precisar lidar com Napoleão Bonaparte e com a Inglaterra ao mesmo tempo, o que resultou nesse evento único que foi a mudança da Corte Portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro. E foi uma coisa monumental: não era só a Família Real cruzando o Atlântico, mas quase toda a nobreza e a estrutura administrativa do reino!  Se você tem curiosidade sobre o assunto, dá uma olhadinha aqui.

Uma duquesa de luto

D. Maria I morreu às 11h15min do dia 20 de março de 1816 no Convento do Carmo, no Rio de Janeiro, sendo sepultada com todas as honras no Convento D’Ajuda, evento que foi minuciosamente descrito na pequena imprensa local. Este evento é o meu ponto de partida e referência para a primeira parte do projeto.

Como a pesquisa documental acerca das leis e costumes de luto já está em andamento, me adiantei e fui procurar algumas referências visuais para me ajudar a pensar um traje de luto. Para começar, peguei uma das melhores fontes visuais desse período: os quadros e gravuras que o pintor francês Jean-Baptiste Debret produziu durante sua estadia no Brasil (1816-1831). Com muita sorte, mas muita mesmo, já encontrei minha sonhada referência visual de primeira. Apresento a vocês a Duquesa de Cadaval, super elegante em sua toilette de luto em 1816:

Destalhe do quadro “Casa da Duquesa de Cadaval ocupada pelo Duque de Luxemburgo em 1816”. Coleção Particular.

Depois de achar o quadro, resolvi ver se descobria alguma coisa da biografia da personagem e olha, ela teve uma vida bem interessante. Seu nome era Marie Madeleine Charlotte Henriette Émilie de Montmorency-Luxembourg e ela nasceu em Paris em 1778. Como ela foi parar no Brasil? Em 1789, o pai dela, o Duque de Luxemburgo, foi servir em Portugal como diplomata. Quando ela tinha 13 anos foi dada em casamento ao Duque de Cadaval, chefe de uma das principais famílias nobres de Portugal, com quem teve quatro filhos. Os Duques de Cadaval acompanharam a Corte Portuguesa na fuga de 1808, mas só a Duquesa e os filhos chegaram ao Rio de Janeiro: o duque, 13 anos mais velho que a esposa, já saiu doente de Portugal e morreu na chegada a Salvador. Marie Madeleine se tornou então uma viúva rica, dona de uma beleza lendária e a nobre com o status mais alto no Brasil depois da própria Família Real. Aparentemente ela viveu no Rio de Janeiro até 1821, em companhia do irmão, que herdou o título de Duque de Luxemburgo, e dos quatro filhos. Mas essa estadia não correu sem polêmicas: o palacete que aparece no quadro foi tomado pela Duquesa a um militar carioca, que só recebeu o valor dos alugueis quando ela já estava de volta à Europa!

A data, a pessoa e o registro visual fazem desse traje minha primeira escolha para ser reproduzido. A única coisa que eu tenho para este traje é uma pashmina passável para 1810, mas todo o resto, das chemises ao chapéu, precisará ser feito para o projeto. Isso é um desafio enorme, pois é uma mudança completa de período histórico para mim! Obrigada, povo que escolheu Regência. Agora sou obrigada a fazer um corset histórico novo, olha que tristeza, rsrsrsrrsrsrs.


Sobre as atualizações do projeto

Atendendo ao pedido de vocês na enquete que foi feita no grupo do Ateliê da História, as atualizações do Projeto Memento Mori serão feitas aqui no blog, no formato de um Diário textual. É possível que alguma coisa em vídeo apareça também, mas vou basicamente escrever e postar aqui.

Eu queria dividir com vocês esse resultado preliminar da escolha do traje e os achados biográficos sobre nossa Duquesa. No próximo diário teremos uma postagem um pouco mais teórica, explorando as leis portuguesas relativas ao luto da nobreza e os costumes de luto do Brasil no período joanino.

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