Lingerie Histórica,  Moda

O que é um “corset”?

Corset, corselete, corpete, espartilho… são tantas palavras que é muito fácil de confundir! Pra colocar mais lenha na fogueira da confusão, as imagens na internet são super confusas e com nomes frequentemente trocados. Hoje a gente vai falar rapidamente sobre o que é cada uma dessas peças e entender a diferença entre elas.

O CORSET

O corset é uma peça que surge na moda ocidental no século 16 (ou seja, não existiam corsets na Idade Média!) com duas funções básicas: ele sustentava os seios e dava uma postura mais elegante à pessoa. Cada época tem um tipo de corset diferente e depois teremos um artigo sobre isso 😉

Para dar a estrutura do corset eram usadas barbatanas, que podiam ser feitas de junco, vime ou de uma cartilagem que era retirada do céu da boca de baleias. As barbatanas eram inseridas em “canais” costurados no tecido, que são chamados de canaletas:

corset 1770s corpete espartilho corselet
Detalhe das barbatanas em uma reprodução moderna de um corset dos anos 1770.

Os corsets históricos tinham um número bem considerável de barbatanas, que, colocadas na posição correta, permitiam não só que a postura ficasse mais adequada, mas acabavam dando um certo formato ao corpo. Novamente, como cada época tinha um certo formato de corpo considerado como ideal, a modelagem dos corsets mudava muito de uma época para outra. Aliás, nesse link você encontra um artigo com várias dicas de moldes e livros de corsets históricos.

Como o corset modelava o corpo?

O corset era o sutiã dos séculos passados, então era usado durante a maior parte do dia. Do mesmo jeito que as calças de cintura baixa nos anos 2000, o corset acabava modelando o tecido gorduroso do abdômen através da compressão constante. Mas o tal do tight lacing, que é a técnica de modelar a cintura permanentemente através do uso constante de corsets especiais, é um negócio que só foi possível a partir dos anos 1850, quando surgiram os ilhóses de metal. Antes disso, os buraquinhos onde os cordões passavam tinham um acabamento feito à mão e não aguentavam muita tensão, pelo menos não a mesma que um corset da Era Vitoriana, por exemplo.

corset corpete espartilho corselete
Corset polonês dos anos 1880.

Muito importante: o corset era uma peça de roupa íntima. Apesar de vários modelos serem lindamente decorados como esse aí em cima, nenhuma mulher sonharia em andar com ele à mostra no meio da rua!

E o corset moderno?

O corset saiu de uso nos anos 1920 e só foi retornar, numa nova versão, nos anos 1950. Mas foi nos anos 1980 que ele reapareceu com muita força, só que numa função diferente: ao invés de ser uma peça de uso íntimo, passou a ser uma peça de uso fashion, sexy e usada à mostra. Mas é importante lembrar que:

  • nem a modelagem nem os materiais usados nos corsets modernos são iguais aos corsets históricos
  • o corset é uma peça que precisa de muito estudo para ser confeccionada com perfeição e não ser desconfortável e até prejudicial à saúde
  • cada corsetmaker, que é a pessoa especializada na confecção de corsets, tem sua própria modelagem, inclusive para adaptar modelos históricos
  • todo corset deve ser feito sob medida porque cada corpo tem medidas e proporções próprias. Não dá pra fugir muito disso!

2. CORSET X CORSELETE, A BRIGA ETERNA

Lembra que eu falei ali em cima que o corset voltou “adaptado” na metade do século 20? Embora a silhueta dos anos 1950 pedisse uma cintura fina, nem as mulheres e nem a indústria da moda estavam afim de um corset vitoriano, por exemplo. Então os corsets ganharam uma versão um pouco mais leve, com materiais moderninhos (nylon e barbatanas plásticas, por exemplo) e com bem menos barbatanas. Eles ainda marcavam a cintura, mas não modelavam o corpo e nem davam a mesma estrutura de um corset antigo. Aqui nascem os corseletes:

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Corselete original de 1957.

Olhando para a foto aí em cima, a gente consegue ver que já é uma peça bem parecida com os corseletes de hoje em dia, né? Com o tempo, o corselete foi se transformando até chegar na peça atual: ele não modela o corpo, apenas destaca a forma que o corpo já tem. O corselete tem uma modela completamente diferente do corset. Alguns corseletes usam barbatanas plásticas e outros usam barbatanas metálicas (nem sempre de boa qualidade!), mas o efeito é completamente diferente:

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Imagem aleatória tirada da net

Um boa dica para diferenciar um corset de um corselete também é o preço. O corset é uma peça cara e você não vai encontrar um corset bom por muito menos de R$ 400, sendo generosa. Já os corseletes são encontrados por valores a partir de R$ 50,00.

Outra dica é a confecção. É muito difícil encontrar corsets a pronta-entrega no Brasil. Algumas marcas colocam peças antigas de mostruário à venda, mas isso não é comum. Geralmente o corset é feito sob medida (o tempo de confecção varia de marca para marca) e os corseletes podem ser encontrados à pronta entrega até nos sites chineses.

3. E O CORPETE?

É a parte de cima de um vestido, feita para ser usada à mostra mesmo. Os corpetes podem ser estruturados com entretelas e até ganhar barbatanas plásticas em algumas costuras para deixar o caimento mais bonito, mas é só isso.

Se o corset e o corselete são fechados com aqueles cordões trançados, que são feitos para ajustar a regular a tensão da peça, o corpete não precisa disso. Corpetes são fechados com zíper, ganchinhos, botões, fechos metálicos decorativos, etc.

Nas roupas históricas, o corpete é sempre usado em cima do corset. O corset dá forma ao corpo e o corpete cobre tudo.

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Corpete vitoriano dos anos 1850.

POR ÚLTIMO, O ESPARTILHO

No português, a palavra espartilho aparece no século 19 como sinônimo de corset (que também era chamado de “colete de senhora”) É muito comum confundir corset com espartilho, mas a gente costuma adotar uma definição bem simples: espartilho é aquele corselete de lingerie. Ele não modela, não é pensado para usar por cima da roupa e só serve mesmo para a gente se divertir 😀

 

COMENTÁRIOS

Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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