Beleza & Cosméticos

As Cinturinhas da Era Eduardiana

É quase impossível olhar para as fotos e ilustrações de moda da Era Eduardiana (1901-1914) e não se encantar com duas coisas: a beleza dos vestidos e as cinturas minúsculas. De fato, a Era Eduardiana é considerada por muitos o período áureo do tight lacing e está envolta em mitos como a realização de cirurgias para tirar as costelas flutuantes e a existência de sofás específicos para as mocinhas desmaiarem devido à compressão do corset. O que reforça muitos desses mitos são as fotografias de celebridades da época, com bustos e quadris volumosos e cinturas quase inumanas:

Camille Clifford, um dos ícones de beleza da Era Eduardiana.

O problema é que fotos como essa são tão representativas da realidade das silhuetas e proporções da época quanto qualquer modelo de capa de revista de moda ou dieta nos dias de hoje. E nesse artigo a gente vai conversar sobre como eram as mulheres reais da Era Eduardiana e os truques que elas usavam para criar a silhueta da época.

 

O PHOTOSHOP DA ERA EDUARDIANA

Embora o Adobe Photoshop seja uma invenção recente, manipulação e edição nasceram praticamente junto com a própria fotografia. Tanto quanto hoje, celebridades (cantores de ópera, atores, artistas e pessoas de grande status social) eram uma referência de beleza e estilo e tomavam muito cuidado com a veiculação de suas imagens. No final do século 19, muitos artistas tinham suas fotos comercializadas no formato carte-de-visite (CDV): um cartão de papel estruturado, menor do que uma foto 10x15cm, que trazia uma fotografia identificada do artista. Os CDVs podiam ser produzidos rapidamente e em certa quantidade, tornando-os ideais para serem colecionados a preços módicos. Não só artistas faziam uso dos CDVs para popularizar sua imagem: governantes e membros de diversas famílias reais aparecem em fotos nesse formato, que eram colecionadas e guardadas em álbuns de família!

É importante lembrarmos aqui que fotografia nunca foi sobre retratar a realidade, mas sobre criar imagens idealizadas. Pense no uso que fazemos do instagram hoje em dia, selecionando as melhores fotos, com os melhores cenários, para mostrar para o mundo a imagem que nós queremos que ele tenha de nós (que não necessariamente corresponde à realidade). Nós não somos tão modernos como gostaríamos de pensar, nem são os filtros e edições. Desde a Era Vitoriana, fotografias eram manipuladas à exaustão, permitindo trocar cenários e objetos, incluir e excluir pessoas e, claro, melhorar a imagem da pessoa retratada. Isso incluía edições pesadas na pele dos retratos e retoques na silhueta, especialmente no caso das mulheres. Deixa eu mostrar uma foto clássica da época para vocês:

A atriz e cantora francesa Polaire supostamente tinha a cintura mais fina do mundo em 1900: 41cm, contra 97 de busto em 1.60m de altura. E ela transformou essas supostas medidas em parte da sua persona pública e da sua fama. No entanto, basta olhar a foto com um pouco de cuidado para perceber o quanto ela foi pesadamente editada, e uma edição do tipo “cabeça maior que o quadril na capa da Vogue”: o corpo ficou completamente deformado!

Como eram feitas as edições?

Primeiramente, as fotos deveriam ser feitas contra fundos sólidos, que tornariam a edição mais fácil. Preto, branco e cinza eram os mais utilizados.

Uma vez tirada a foto, a alteração era feita diretamente no negativo. As partes a serem diminuídas eram raspadas ou cortadas. As partes que deveriam ser enfatizadas ou aumentadas eram pintadas à mão com pigmentos especiais. As peles perfeitas das fotos de antigamente eram igualmente artificiais, obtidas através de retoques com tinta ou fricção de areia, que suavizava as linhas de expressão e criava aquele aspecto quase leitoso. Detalhe: esse tipo de técnica de edição ainda era usada nas fotos das atrizes de Hollywood nos anos 1930:

Antes e depois da atriz Joan Crawford, fotografa por George Hurrel em 1931. A foto foi editada por James Sharpell durante 6 horas para chegar a esse resultado.

No blog da RedThreaded, a corsetmaker da marca fez um pequeno experimento para demonstrar como funcionavam essas técnicas de edição de medidas. No post, ela informa que está usando um corset com modelagem própria para a década de 1900 e muito padding no busto e quadril. Sabe o que é “padding”? O bom e velho enchimento. Com enchimentos nos lugares certos, a cintura já parece muito mais fina graças à ilusão de óptica, mas ela foi mais além e resolveu testar a edição da foto de acordo com o método da Era Eduardiana. E esse foi o resultado:

De acordo com a postagem original, cor, iluminação e contraste foram editados para se aproximar das fotografias da época. Créditos: RedThreaded

A primeira foto contém apenas a edição de cor, iluminação e contraste. Na segunda foto, as linhas vermelhas correspondem às áreas onde um fotógrafo da Era Eduardiana faria a edição. Na terceira foto, temos o resultado final.

 

SILHUETA EM “S”: IDEALIZAÇÃO X REALIDADE

Entre 1901 e 1910, um novo tipo de corset surgiu no mercado com a promessa de ser mais saudável e mais elegante que os ancestrais vitorianos: o s-bend corset. A proposta era criar uma silhueta que enfatizava a curva natural das costas, deixando os seios na posição natural (eles eram mantidos alguns centímetros acima com os corsets vitorianos) e mantendo o abdômen elegantemente reto. Vamos dizer que os anúncios da época eram só um pouquinho exagerados ao apresentar a nova silhueta:

Assim como as ilustrações de moda que povoavam as revistas da época:

era eduardiana
The Delineator, 1901

Agora, quando vamos para as fotos originais da época, conseguimos ver como essas figuras idealizadas eram utilizadas, de fato, no dia-a-dia. Vamos começar com essa foto de catálogo da Blanche Lebouvier de Paris, de 1901:

Profundamente eduardiana, mas bem distante das proporções dos anúncios, né?

E a própria realeza da política americana, com Edith Roosevelt, Primeira-Dama dos Estados Unidos, posando com o filho para um retrato informal em 1902. Note que, na posição dela, Edith deveria fazer eco a todas as tendências de estilo da época, mas ainda temos uma figura bem diferente daquilo que aparece nas ilustrações de moda:

Elegante, porém realista.

E sua enteada, a princesinha americana por excelência, Alice Roosevelt. Uma mulher de temperamento e atitude fortes, ela é considerada uma das primeiras celebridades americanas do século XX e era um verdadeiro ícone de beleza e estilo da época. Aqui ela aparece no auge de sua beleza e elegância, mas com uma silhueta bem mais, digamos, realista:

Para focarmos na Europa, a atriz Lina Cavalieri, uma das maiores beldades da época, posa com toda a sua graça e elegância em 1910:

E esta modelo, que posa para uma foto de catálogo da Maison Worth, o primeiro nome da Alta Costura. E, mesmo nessas condições, temos uma silhueta bem mais humana e plausível:

Mas algumas fotografias trazem uma silhueta mais voluptuosa e próxima das ilustrações e anúncios da época. É o caso desse belo registro de um grupo de atrizes em 1909:

Observando bem a foto acima, e muitas das fotos de estúdio da Era Eduardiana de forma geral, perceberá que era comum as mulheres posarem de perfil ou em 3/4, com um dos braços levemente dobrados e uma postura discretamente inclinada para a frente, projetando o busto e alinhando os ombros. É uma pose muito dignificante, que contém todos os truques que se ensinam até hoje para criar a ilusão de um torso alongado e cintura mais fina. Aliás, ilusão é a palavra-chave aqui e um tema que vamos explorar na segunda parte do artigo, onde falamos sobre enchimentos e outros truques que davam uma mãozinha para a natureza.

 


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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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