Robe a la o quê?!?

Chemise a la Reine, um vestido para derrubar a Monarquia

Quando Elisabeth Vigée-Lebrun apresentou um retrato da rainha Maria Antonieta despojada de todos os símbolos tradicionais de poder e status, a França ficou em cólicas. Era o ano de 1783 e as tensões políticas e sociais já ferviam debaixo dos panos da monarquia. O quadro teve que ser removido da exibição pública. Era considerado ofensivo que a Rainha, mãe do povo francês, se apresentasse sem suas insígnias de realeza, ainda mais vestida com o que parecia ser uma peça íntima . O pivô do escândalo era um vestido que seria conhecido como Chemise a la Reine e marcava o início de pequena revolução dentro do guarda-roupa feminino.

Maria Antonieta em toda a glória e indecência de sua Chemise a la Reine. Vigée-Lebrun, 1783.

A Chemise a la Reine era só mais um dos atos de rebeldia de Maria Antonieta contra a rígida etiqueta e os rituais infinitos que regulavam a vida na corte francesa. Desde 1774, ela dispunha de uma residência própria, o Petit Trianon, onde podia receber quem quisesse e do modo como bem entendesse, sem se preocupar com as hierarquias e cerimônias que envolviam a convivência em Versalhes. Quem assistiu Maria Antonieta certamente lembrará da cena em que a rainha está se vestindo e é interrompida por várias entradas de damas nobres. Isso não é ficção: a diretora se baseou num episódio real, narrado pela memorialista Mme. de Campan, decorrente das preeminências. No meio da nobreza, algumas famílias tinham um privilégio maior em virtude de sua ligação familiar com o rei ou por casa de um ancestral ilustre. Os membros dessas famílias podiam, por exemplo, ter a honra de ajudar os reis a se vestirem ou acompanharem os reis numa caminhada. Maria Antonieta detestava essas regras, que não valiam dentro do Petit Trianon – para escândalo da nobreza, que se sentia privada do privilégio de estar próxima da rainha.

De acordo com o folclore envolvendo a peça, a Chemise a la Reine foi encomendada pela rainha à sua costureira particular, Rose Bertin. Maria Antonieta gostava de simular uma vida simples nos jardins do Petit Trianon, onde mantinha uma minifazenda e até ordenhava o gado, e precisava de uma roupa mais adequada para sua vida bucólica. Maria Antonieta teria gostado tanto do vestido que encomendou à pintora Elisabeth Vigée-Lebrun (outra pequena rebeldia da rainha: sua retratista era uma mulher!) um retrato posando com a Chemise a la Reine. O resultado não poderia ter sido pior. Apesar de o quadro ser maravilhoso, a recepção dele foi péssima, pois a mentalidade da França do século XVIII não concebia que a rainha se fizesse representar se não da forma mais majestática possível. De alguma forma, o traje da rainha ofendia o que se esperava de alguém na posição dela. Assim, Vigée-Lebrun precisou refazer o quadro, com a rainha usando outra roupa:

Originalmente, a Chemise a la Reine foi pensada para ser um vestido sem estrutura, consistindo numa peça de musselina ajustada ao corpo através de cordões, com um forro sequinho e sólido, e mangas bufantes. Uma parte da polêmica em torno da peça, acredita-se, venha também da escolha de material, pois os tecidos de algodão eram importados (e de fabricação inglesa, como se não bastasse!), enquanto que as sedas e rendas usadas nos Trajes de Corte eram de fabricação nacional. A cintura era marcada por uma faixa de seda, o sash. Muito provavelmente, a primeira versão da chemise foi projetada para ser usada sem espartilho, já que a rainha mais de uma vez manifestou seu horror aos espartilhos. Há registros de que pelo menos um exemplar da chemise tenha sido enviado para a Duquesa de Devonshire, que estava para a Inglaterra assim como Maria Antonieta estava para França enquanto trend setter. 

O primeiro registro de uso da Chemise na Inglaterra, porém, é da poetisa Mary Robinson, numa ida à ópera. Mary Robinson era amante do rei e bastou que ela usasse o traje para que a imprensa inglesa aclamasse a Chemise a la Reine como sensação, em novembro de 1784. A peça foi definitivamente incorporada ao guarda-roupa inglês quando a Duquesa de Devonshire apareceu com ela em um baile. Em dezembro do mesmo ano, a melhor amiga da duquesa já aparece em um retrato usando sua própria Chemise a la Reine:

Lady Elizabeth Foster retratada por Angelica Kaufmann em 1784.

A (R)EVOLUÇÃO DA CHEMISE A LA REINE

Desde sua estreia é 1783, a Chemise a la Reine passou de escandalosa a fashion e foi se modificando para dar origem, em última instância, aos vestidos do período da Regência.

Anos 1780s

Nos seus primeiros anos, a Chemise a la Reine permaneceu basicamente não-estruturada, apenas retângulos de tecido ajustados ao corpo com cordões, criando uma silhueta bastante fluída e que podia, inclusive, dispensar o uso dos espartilhos para as mais ousadas ou seguras. As mangas costumavam ter comprimento 3/4 e também tinham um certo volume, não raro enfatizado com o uso de fitas que criavam puffs em pontos estratégicos dos braços.

Um único exemplar original dessa época chegou até nós e nos mostra uma construção extremamente simples – uma peça que é excelente para você começar a montar uma guarda-roupa do século 18:

Chemise a la Reine original da década de 1780. Acervo da Manchester Gallery.

 

Detalhes da construção da Chemise a la Reine

 

Detalhes da construção da Chemise a la Reine

Foi a partir dessa peça que Nora Waugh, no livro “The Cut of Women’s Clothes (1680-1795)”, produziu um dos primeiros moldes de uma Chemise a la Reine, até hoje um dos queridinhos no meio da costura histórica:

Clique na foto para baixar o arquivo em tamanho grande ^^

Segundo nos mostram alguns retratos da época, algumas mulheres também incluíam almofadas no bumbum, criando uma silhueta levemente volumosa e bem arredondada. Possivelmente, uma anágua bem engomada faria parte desse conjunto.

O retrato do casal Lavoisier, dois grandes nomes da química no século 18, nos mostra um pouco dessa silhueta:

1787

Uma outra característica muito importante da Chemise a la Reine dos anos 1780s é a presença de um decote redondo amplo (mas sem deixar os ombros à mostra!), guarnecido com uma ou duas camadas de babados. Esses babados eram feitos com o próprio tecido do vestido ou, às vezes, com rendas delicadas.

1787

Anos 1790s

Na década seguinte, a Chemise a la Reine começa um processo de transformação que criará a silhueta de transição entre o século 18 e a Regência. Os decotes começam a ficar um pouco mais altos e perdem os babados. As mangas começam a ficar mais longas e sequinhas. A modelagem toda vai se tornando um pouco ajustada e, uma vez que os decotes abertos começavam a sair de moda, a Chemise a la Reine passa a ter o seu decote preenchido com um lenço (fichu) ou mesmo a ser usada sobre uma camisa de gola mais alta e fechada. Ainda assim, as variações de mangas e decotes ao longo da década são consideráveis:

1793

 

1794

 

1795

 

1795

 

1795

 

1796

A grande mudança que a Chemise a la Reine sofreu nos anos 1790s foi a introdução das costas ajustadas, seguindo recortes muito parecidos com o Robe a l’Anglaise:

MAS A CHEMISE A LA REINE NÃO É SÓ BRANCA?

Oh, não, meus padawans! Embora a Chemise a la Reine original fosse branca (e possivelmente baseada no que se chamava de “robe a la créole”, um traje branco franzido usado pelas mulheres negras livres nas colônias francesas na América), a imaginação e a moda andam sempre de braços dados e a coisa não ficou só nessa cor. As revistas da moda dos anos 1780s trazem vários exemplos de Chemises em cores diferentes e elas também aparecem coloridas em retratos.

A julgar pelo que trazem as revistas de moda da época, a Chemise a la Reine abriu um espaço imenso para combinações e interpretações:

“Chemise a la Reine” em musselina verde. Cabinet Des Modes, 1784.
A descrição da ilustração informa que esse modelo poderia ser usado aberto a partir da cintura, mostrando uma anágua contrastante.

 

“Chemise à la Jesus”, cortesia de uma edição de 1785 do Cabinet Des Modes

 

Cabinet Des Modes, 1786.
A publicação sugere que este modelo seja confeccionado em tafetá, algo beeem distante das musselinas favorecidas pela Rainha.

 

Chemise a la Floricourt (1787). Eu honestamente não sei o que está acontecendo aqui.

 

Aparentemente, rosa era uma cor bem popular e podia ser combinado com azul royal e verde bebê

 

Tons derivados de vermelho também, em 1791.

 

E as versões de luto, que são encontradas em vários retratos e miniaturas dos anos 1790.

O PROBLEMA DOS NOMES E DA AUTORIA

A Chemise a la Reine é uma criança de muitos nomes. Ela só recebeu este nome depois da exposição do retrato da Rainha Maria Antonieta, mas o traje não foi criado especialmente para ela; apenas tornou-se conhecido a partir dela e da polêmica em torno do quadro. Mas o primeiro registro visual do que chamamos de Chemise a la Reine é de 1781, num retrato da Madame du Barry:

Quando o infame quadro de Maria Antonieta foi exposto, foi dito que a Rainha estava vestida “en chemise”. As publicações de moda dos anos seguintes alternam diferentes nomes para o vestido: “robe en chemise”, “robe anglaise en mousseline”, “chemise a la reine”, “robe en gaulle”. Aparentemente, a escolha dos nomes cabia puramente aos editores e não obedecia a critérios específicos.

E de onde ela veio?

Como cheguei a comentar ali em cima, há uma teoria que liga a origem da Chemise a la Reine à febre da “Vestimenta à Crioula” que invadiu a França no final dos anos 1770. Tudo teria começado com um balé que se passava nas colônias francesas na América e apresentava uma versão artística e afrancesada do que as mulheres crioulas (termo usado para se referir à mulher negra livre) usavam. Algo mais ou menos assim, de acordo com os criadores de moda do período:

Mas, aparentemente, a realidade da tal ‘vestimenta crioula’ era só um pouquinho diferente:

Mas como o século 18 adorava fazer “releituras” das chamadas “modas exóticas” (Oriente Distante, Oriente Próximo), não duvido que haja realmente alguma influência da indumentária crioula sobre a Chemise a la Reine.

 

Não esqueça de conferir a série completa “Robe a la o quê?!?” para conhecer outros estilos de vestidos que marcaram o século 18!


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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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