Chapéus,  Dicionário de Moda Histórica

Chapéu bergère, o queridinho do século 18

O chapéu bergère é um dos ícones incontestáveis do século 18. Seja com a reveladora Chemise a la Reine ou com o aristocrático Robe a la Française, ele foi eternizado nos retratos da época e tem lugar cativo no coração de todos os fãs da moda dos anos 1700.

O chapéu bergère é um chapéu de aba larga e coroa baixa, geralmente feito de palha (trançada ou costurada) e decorado com fitas, laços, flores e plumas. Ele não era feito para encaixar na cabeça, mas para repousar sobre os complicados penteados da época, preso apenas por alfinetes especiais. Atribui-se sua aba tão larga ao fato de ser um chapéu próprio para passeios ao ar livre, já que ele protegeria o delicado rosto das damas contra os raios do sol.

Madeleine Delpierre e alguns outros pesquisadores acreditam que o primeiro registro visual de um chapéu bergère seja esse retrato de 1766 de Madame Bergeret, pintado por François Boucher. Há quem diga que o nome foi inspirado nela, mas os chapéus desse tipo já aparecem desde os anos 1730! E a inspiração estava bem longe da nobreza…

BOUCHER, François. “Madame Bergeret” (1766)

Bergère é a palavra francesa para “pastora” e não poderia ser mais apropriada para descrever a atmosfera em que esse chapéu surgiu. No século 18 um certo ar bucólico invadiu as artes. Num mundo que havia se tornado prisioneiro da etiqueta dos palácios, uma versão idealizada da vida no campo parecia exatamente o antídoto necessário à vida na Corte. Não é por um acaso que tantas pinturas desse período retratam cenários campestres e várias modas da época fazem referência ao campo e às suas atividades. Mas claro que isso era uma visão totalmente idealizada da nobreza, que achava a vida no campo linda e maravilhosa justamente porque não precisava levantar às 4h da manhã para ordenhar as vaquinhas.

WATTEAU, Jean Antoine. “O Descanso” (1709). Watteau é um dos meus pintores favoritos do Rococó.

O modelo mais tradicional de chapéu bergère era feito em palha e decorado com elementos alusivos à natureza, além das fitas de seda, que era um artigo de muito luxo no período. Eles podiam também ter uma faixa colorida na borda da aba e até algum tipo de renda ou até mesmo forro em tecido. Esse modelo da coleção do Victoria & Albert Museum é um dos que eu mais gosto:

1760

No geral, o design do chapéu bergère é muito delicado, refletindo essa atmosfera pastoril do Rococó e sendo um contraponto aos drapeados quase arquitetônicos dos vestidos. Alguns modelos eram decorados apenas com fitas, trabalhadas para criar diferentes efeitos, como esse modelo de um retrato de 1753:

PICKERING, Henry. “Eleanor Frances Dixie” (1753)

Se você olhar bem o retrato, vai descobrir que ela está usando um toucado branco embaixo do chapéu. Esse uso era particularmente comum nos países do norte da Europa, especialmente entre mulheres que não partilhavam do entusiasmo pelos penteados altíssimos. Além de proteger o cabelo contra a poeira e o chapéu contra a oleosidade do cabelo, o toucado fornecia uma base mais estável para que o chapéu bergère fosse alfinetado.

Mas mesmo as mulheres com os penteados mais esculturais davam um jeitinho de usar o modelo. Nos anos 1760 e 1770, quando os cabelos femininos ficaram mais altos e mais elaborados na parte de trás, o chapéu bergère passou a ser usado com uma leve curva, que protegia o rosto e permitia a exibição dos penteados mais artísticos:

Detalhe de uma fashion plate de 1778 (Gallerie des Modes)

Alguns modelos eram feitos em palha, mas recebiam cobertura e forro de tecido, geralmente seda. É possível que tanto a palha quanto os tecidos recebessem algum tipo de tratamento impermeabilizante, mas isso é uma hipótese ainda a ser testada.

Ter fitas para amarrar não era uma regra no chapéu bergère e quando elas existiam, não eram amarradas sob o queixo; elas eram colocadas para trás, apoiadas na nuca. Zero estabilidade, o que ainda exigia os alfinetes!

Olhaí a produção errando na fitinha do chapéu bergére

E nem sempre as fitas eram literalmente fitas de cetim/seda, como a gente imaginaria hoje. Havia alguns modelos pesadamente decorados com renda e amarrados com tiras do mesmo material. Olha essa gracinha de 1750:

MAS POR QUE PALHA NO CHAPÉU BERGÈRE?

Eu sei que parece estranho que uma peça tão fashion e ligada à nobreza como o chapéu bergère fosse feita num material tão simples. Aí é que está o problema: um chapéu de palha é simples para nós, mas era um material caro, suscetível às variações climáticas e que dependia de um trabalho altamente especializado. E bem desumano: na França e Inglaterra as confecções de chapéus empregavam crianças pequenas, a partir dos 4 anos,  para fazer as tramas bem apertadas. Na Inglaterra esse ofício era ensinado em escolas no interior e o trabalho com palha, exclusivamente feito por mulheres e crianças, representava uma renda importante para famílias de pequenos agricultores. Essa copa é de um chapéu inglês do início do século 19, mas a técnica é a mesma do século 18. Dá pra ter uma noção da complexidade do trabalho artesanal:

PERAÍ, E O CHAPÉU DA SCARLETT O’HARA É O QUÊ?

No final dos anos 1850 rola uma certa nostalgia com o século 18 e a moda vitoriana começa a kibar se inspirar num bocado de linhas dos anos 1700s. Alguns pesquisadores acreditam que as crinolinas sejam um revival vitoriano dos paniers e outras armações mais antigas. Nessa onda, o chapéu bergère foi redescoberto e ganhou uma nova forma, consideravelmente maior e que ficava mais equilibrado com as crinolinas. É um chapéu desses que a personagem Scarlett O’Hara usava na famosa cena do churrasco em “E o Vento Levou…”, que tem a composição de uma pintura:

Aí sim, na versão do século 19, é que veremos o chapéu amarrado para a frente, com generosos laços de fita de veludo embaixo do queixo da mocinha.

 

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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