A Modista do Desterro – Pauline Kisner

Cakewalk, uma dança negra nos salões da Belle Époque

A foto aí embaixo bem poderia ser uma coreografia de “Thriller”, mas é o “cakewalk”, uma dança de origem afroamericana que conquistou os rígidos salões e teatros da Belle Époque, entre o final do século 19 e começo do 20.

O passo conhecido como “cakewalk” teve suas origens na escravidão. Espiando através das janelas os espetáculos oferecidos pelos senhores brancos, negros escravizados começaram a saltar e se embonecar, numa imitação dos seus escravizadores, usando movimentos exagerados, cortesias e reverências, assim como adotando roupas elegantes como zombaria. Na performance, os casais se perfilavam para formar um corredor, e cada casal fazia seu desfile – um pequeno deboche da Grande Marcha que comumente abria os bailes da elite. A ironia veio quando os senhores começaram a promover competições de cakewalk, premiando os vencedores com algum tipo de bolo.

O significado real da dança se perdeu quando os músicos brancos se apropriaram dela, adicionando a dança exagerada ao seu repertório como forma de mostrar as tentativas dos negros escravizados e pobres de imitar os modos dos brancos. O cakewalk perdeu assim seu caráter de sátira; para os músicos e sua plateia, significava que os negros estavam tentando ser brancos. Na virada do século 19 para o 20, o cakewalk era usado por músicos negros e brancos bem distante de seu contextos original. E, enquanto a comédia começava a se destacar nos teatros, o cakewalk saiu dos palcos de pequenos teatros de bairro para os grandes palcos como a Broadway e até mesmo para o cinema.

Pôster de um espetáculo de cakewalk de 1896. Fonte:Wikipedia

Dora Dean e seu marido Charles E. Johnson trouxeram a dança para o público branco em 1893, com a produção de “The Creole Show”. A apresentação causou furor. Não apenas Dean, Johnson e todo o elenco de negros dispensava o uso da blackface (recurso de maquiagem que consiste em pintar a pele aparente dos atores de modo a fazê-los parecer uma caricatura de pessoas negras), mas a dança em pares era uma novidade nos palcos. O sucesso foi seguido pelo musical cômico “Clorindy: a origem do cakewalk”, uma sketch de mais de 1h que foi a primeira com elenco completamente negro a se apresentar em um palco da Broadway. Essa apresentação abriu espaço para que os espetáculos de cakewalk ganhassem os teatros e a dança começasse a penetrar os salões das Belle Époque.

O Cakewalk foi a primeira dança negra a ser aceita na sociedade branca, o que abriu caminho para que outras danças e ritmos de matiz africana, como o próprio Charleston. Artistas dessa época, como Bert Williams & The Walkers, promoveram vários outras companhias e iniciaram a longe jornada da aceitação de artistas negros no circuito da música, do teatro e do cinema nos Estados Unidos e em outros países  – não sem uma ruidosa oposição de setores mais conservadores da sociedade.

Ficou curioso para saber como se dançava o cakewalk? Achei alguns vídeos, trechos de filmes do comecinho do século 20, que mostram um pouco dessa dança:

Traduzido & Adaptado de Edwardian Promenade

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