Costura Histórica

Bustle Lagostinha (1880s) + Resenha Molde Truly Victorian

Como parte dos planos de costura para 2019, decidi fazer cosplay de um traje bustle lindo do filme novo da Mary Poppins. E como eu vivo dizendo para vocês que traje histórico se constrói de dentro para fora, eu não poderia começar esse traje sem a coisa mais básica dele: a anquinha traseira que dá aquele visual quase prateleira para os vestidos dos anos 1880.

O QUE É UM “BUSTLE”?

Bustles ou anquinhas são um tipo de armação que foi muito usada nos anos 1880 e em alguns momentos específicos dos anos 1870. Ao contrário da crinolina, que arma a saia em torno do corpo todo, os bustles concentram o volume da saia na parte de trás, criando um bumbum bem avantajado. Inclusive esse é um ótimo visual para quem já tem o quadril largo, porque deixa a silhueta ainda mais próxima do ideal vitoriano. Algo assim:

Mas como eram essas armações? Havia bustles de diferentes formatos e materiais, dependendo do peso da saia que seria usada e do próprio gosto da mulher. Esse são alguns modelos anunciados em um catálogo de 1887:

De todos os modelos da época, meu favorito é o “lobster tail”, que eu tomei a liberdade de chamar de “bustle lagostinha” em português porque “rabo de lagosta” é feio pra xuxu:

Esta é uma peça original que pertence ao acervo do MET (Museu Metropolitano de Nova York)

O MOLDE

Quando comecei a idealizar o projeto, já sabia de cara que usaria um dos moldes digitais da Truly Victorian, só não sabia qual. Acabei optando pelo “Imperial Tournure” (TV163E), porque ele vem com duas opções de modelo e todos os tamanhos, do manequim 34 ao 54. O molde digital custa 10 dólares (deu pouco menos de R$ 40, com o IOF) e chegou no e-mail quase na mesma hora, com três arquivos: instruções e dois arquivos com o molde, um para impressora doméstica e outro para impressoras profissionais daquelas de gráfica.

Eu fiz a impressão doméstica e foram 31 páginas que, depois de coladas, resultaram em 6 peças de molde. O molde já vem com uma margem de costura generosa (1.5cm) e todas as marcações de pences e fio do tecido. As instruções tanto de montagem das folhas de molde quanto de costura da peça são simples e diretas, sem termos muito técnicos, o que facilita muito a vida de quem precisa usar o Google Tradutor. E, ao contrário da crinolina, o bustle lagostinha é todo costurado à máquina, à exceção de uma costura de mão rápida para fechar as canaletas.

Como falei ali em cima, o molde vem com duas opções de modelo: o Regular, que comporta também saias da década de 1870 e as de 1880 mais modestas, e o Imperial, que dá realmente um efeito mais prateleira e imponente. Optei pelo regular.

Materiais

Resolvi levar ao pé da letra o lance de “bustle lagostinha” e optei por usar um tecido num tom de vermelho que lembrasse uma lagosta de desenho. Eu tinha em casa um cetim de noiva brocado, que era sobra do vestido do meu casamento, que acabou fechando perfeitamente com o projeto. Mas, apesar de ter curtido o resultado visual, eu não usaria este material de novo; acho que esse bustle ficaria melhor com um algodão ou com um cetim menos pesado.

TECIDO: As instruções do molde aconselham 2m de tecido com 1.40m de largura para trabalhar todos os tamanhos com folga. Como o meu tecido tem 2m de largura, acabei usando metade disso.

BARBATANAS: Usei 5m das mesmas barbatanas usadas na crinolina. Como são cortes pequenos, acabei reaproveitando restos de outros projetos e nem precisei abrir ou cortar barbatanas novas.

Também usei aqueles ganchinhos de barra para fechar cós de calça social, para deixar a peça mais firme mesmo.

 

RESULTADO FINAL

Beeeem lagostinha

 

Lateral

 

3/4

E a silhueta? Ainda falta fazer a anágua antes de começar a saia, mas não resisti a jogar uma malha por cima da saia para testar o visual. Ela ainda vai ficar um pouco maior, porque a anágua tem vários babados e é engomada:

Também tem uma diferença entre como a armação fica na manequim e em mim. No meu corpo ela parece maior porque eu já tenho um senhor volume de bumbum, que empina o bustle <3

 

VEREDITO DO MOLDE

Acho que subestimei um pouco a minha diferença entre quadril e cintura. Acabei cortando um tamanho maior (cortei no tamanho “I” e poderia ter cortado no “G”), mas as medidas da TV são bem generosas e realistas. Então o equivalente do tamanho 34 deles é realmente pequeno e o tamanho 44 é realmente um 44, não um 40 como anda acontecendo aqui no Brasil (ok, eu exagerei).

Segui as instruções à risca e, apesar de ter gostado do resultado final, faria duas pequenas modificações:

1) aumentar a largura do cós (acho que melhora a estabilidade);

2) naquela parte arredondada, aplicar um viés do próprio tecido ao invés de fazer barra. Por causa da curva, a fibra do tecido acabou esgaçando na máquina e ficando ondulada, e eu não curti muito isso.

Ainda assim, recomendo de olhos fechados. É minha terceira peça da Truly Victorian e continuo muito satisfeita com o material e com o atendimento da marca. Também achei uma peça tranquila e simples de ser executada, a ponto de ser algo que um iniciante na costura histórica poderia fazer.

Lá no instagram tem meus vlogs sobre o processo de montagem da peça e você pode conferir mais alguns detalhes sobre o molde e como ele foi montado e cortado.

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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