A Modista do Desterro – Pauline Kisner

Um bolso bordado do século 18

No século 18, mulheres francesas e inglesas tinham o costume de usar um bolso removível (às vezes dois) escondido entre a saia e a anágua. O bolso era acessado através de uma discreta abertura entre as pregas da saia, como eu fiz no meu Robe a l’Anglaise:

Os bolsos bordados do século 18 não eram exatamente pequenos e substituíam totalmente as bolsas. Além de terem um tamanho decente (olá, indústria do jeans feminino!), eles ajudavam a garantir um pouco da segurança da mulher, já que era fácil de acessá-los e definitivamente não dava para só chegar e dar um puxão para arrancar. Essa gravura satírica dos anos 1770 nos dá uma noção da posição e do tamanho dos bolsos:

British Museum (ID: 1935,0522.1.227)

Mas nem sempre ele ficava embaixo da roupa. Existem algumas representações dos bolsos sendo usados por cima da saia, principalmente por mulheres trabalhadoras. Eu amo essa tricoteira de 1793 e ainda quero tentar colocar um novelo de linha dentro do bolso, rsrsrsrs:

LACMA (ID:M.86.266.9)

Pelos exemplares que sobreviveram até hoje, vemos que os bolsos eram muito variados em formato, material  e decoração.  Algumas das peças mais conhecidas dos museus gringos foram claramente feitos com retalhos de seda e algodão estampado, provavelmente sobras do tecido de algum vestido. Outros, mais simples, eram decorados com bordados ou quilt e até feitos com técnica de patchwork! Esses bolsos são uma parte tão importante dos trajes do século 18 que existe até uma database digital deles, mantida pela VADS (Visual Arts Database service). Lá você encontra mais de 300 peças originais indexadas por material e técnica de construção e referências textuais sobre como esses bolsos eram fabricados e obtidos pelas mulheres.


Bolso bordado

Pensando no quanto os bolsos mais elaborados, pertencentes às mulheres da elite, eram feitos para ficar escondidos, chega a parecer estranho que alguns deles fossem tão decorados. É uma noção completamente diferente da nossa lingerie moderna, que tem uma função erótica; outras peças, como as ligas de meia, eram profundamente erotizadas, mas não os bolsos. Mas por que bordar essas peças? Alguns pesquisadores trabalham com a hipótese de que, por serem peças que ficavam escondidas, eram um ótimo treino para as meninas que estavam aprendendo a bordar. E muitas das peças sobreviventes têm bordados lindos, mas feitos com pontos super simples e não necessariamente perfeitinhos, o que reforça essa teoria.

O Museu Victoria & Albert tem um par de bolsos bordados que nunca chegaram a ser montados e que nos fornecem uma boa pista sobre como esses bolsos eram construídos: o bordado era feito antes, já no formato final do bolso, e a peça só seria montada depois disso.

(1718-1720) ID: T41.1935, T41.A.1935

Detalhe dos pontos do bordado  e do risco feito com pó de carvão e goma laca, a mesma técnica de alguns bordados tradicionais chineses:

Inspirada por essas peças, resolvi começar minha participação no Traje Brasilis justamente por uma peça que não é vista, mas possivelmente estava lá: um bolso bordado, com risco, materiais e técnicas de montagem historicamente corretas. Aqui eu dei uma forçada no preenchimento das lacunas, com uma forcinha da equipe de conservação do Museu Nacional do Traje, em Lisboa. Embora o museu não tenha bolsos em seu acervo, tem saias com aquelas aberturas laterais que mostrei lá em cima e a equipe do museu trabalha com a ideia de que eles eram usados em Portugal, feitos a partir de modelos ingleses ou franceses. Então escolhi um risco francês da década de 1760, documentado no excelente livro 18th Century Embroidery Techniques, que o sr. Modisto tão gentilmente ampliou e vetorizou para mim:

Não precisa correr para salvar, não. Esse e outros riscos de bordado históricos estarão disponíveis em breve para download no blog do Projeto Traje Brasilis 😉

Bordando o bolso

Comecei desenhando o formato do bolso que eu queria + margem de costura, usando uma caneta para tecidos daquelas que apaga com o calor do ferro de passar:

Com a ajuda da mesa de luz, transferi o risco de bordado:

E começamos o trabalho de bordar o negócio, usando dois pontos básicos: cadeia e haste. No fim, ficou assim:

Depois de bordado, cortei o bolso e comecei a montá-lo. Como meu bordado está longe de ficar com um avesso bonito, optei por forrar a frente do bolso com o mesmo algodão que usei no fundo, uma sobra de tecido de algum projeto antigo.

Alinhavei tudo e comecei a aplicar o viés, usando ponto-atrás para a primeira costura e um pontinho invisível para a vira, que ficou na parte de trás:

Terminei fechando a parte de cima com uma fita de gorgurão bem macia, que já fez o acabamento e me deu as tiras para amarrar na cintura:

Montado na manequim, para vocês terem uma ideia do resultado:

Materiais:

  • 0.5m de saca de algodão (sim, aquela de fazer pano de pratos) para a base do bordado
  • Um retalho aleatório de algodão branco que achei na sacola de retalhos
  • 2m de viés de algodão industrial
  • 2m de fita de gorgurão
  • Meadas de linha Torçal Pérola nas cores verde (2 meadas), roxo(1), azul (1) e amarelo(1)
  • Linha de costura lilás
  • Cêra de abelha para lubrificar a linha de costura (o que salvou minha vida ao evitar que a linha embolasse toda hora)

Tempo total do bordado: umas 8h divididas em vários dias, porque eu sou bem lenta para bordar

Tempo para efetivamente montar o bolso: 1h

Considerações finais

Gente, eu AMEI fazer esse projeto. O bordado era meio que uma coisa inalcançável pra mim, um amor à distância, e poder fazer algo histórico foi uma oportunidade incrível de aprendizado. Eu sou uma mulher do século 21, bordando no sofá de casa, com luz elétrica e ouvindo podcasts, mas esse é o tipo de projeto que faz com que eu me sinta mais próxima das mulheres que viveram no século 18.

Uma das coisas que aprendi na prática foi que esse tipo de projeto fica um pouco desconfortável nos bastidores modernos, aqueles redondinhos. Os bastidores de bordado do século 18 eram quadrados e tinham um pé, que permitia à mulher trabalhar com as duas mãos e manter uma postura mais confortável, pois a altura era ajustável. Esse quadro dá uma ideia de como eram os bastidores domésticos:

Marquese de Caumont (François Hubert Drouais, 1767)

Para projetos futuros, eu realmente considero construir um bastidor de chão e um bastidor de mesa nesse modelo.

O bordado não ficou completamente simétrico, mas muitos exemplares de museu também não são, então não estou surtando com isso. Para o futuro, quero testar outros riscos e pontos e talvez projetos maiores, como um par de mitenes/mittens e até quem sabe um fichu!

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