blusa garibaldi
Costura Histórica,  Dicionário de Moda Histórica

Blusa Garibaldi

Quando se trata do período 1850-1865, um dos looks mais populares e fáceis de se reproduzir é a combinação de saia de crinolina + blusa + bolero – que aparece muito, inclusive, nas fotos da época. Embora seja possível reproduzir essa combinação com camisas de botões moderninhas, do tipo que encontramos em lojas de departamento, o look original era montado com um modelo de camisa específico, a “blusa garibaldi”. É sobre ela que nós falamos hoje.

Só na primeira metade do século 19, a Europa foi varrida por 3 ondas revolucionárias. A inspiração liberal e nacionalista estava presente nas artes plásticas, na música, na literatura e também fez seus estragos no guarda-roupa.

Na época em que a Itália passava por seu processo de unificação, uma nobreza conservadora (que não abria mão da monarquia), uma burguesia cada vez mais forte e a população trabalhadora se debatiam em discussões sobre qual seria a forma de governo ideal para a futura Itália unificada. Nesse cenário, surge uma figura bem conhecida de quem estudou alguma coisa sobre a Guerra dos Farrapos: Giuseppe Garibaldi, depois de lutar ao lado dos gaúchos, retornou à Itália. Lá se tornou o líder dos Camisas Vermelhas (“Cammisi russi”, como eram chamados na época), grupo que congregava os ideias da população mais pobre e lutava pela instalação de uma república.

blusa garibaldi giuseppe
Garibaldi em sua indefectível camisa vermelha, em pintura de ano e autoria desconhecidas,

A fama de Garibaldi e de seus camisas vermelhas era tão grande nos anos 1860 que o revolucionário italiano acabou emprestando seu nome a uma peça muito popular no guarda-roupa feminino e infantil da época.

A “Garibaldi Shirt” ou “Garibaldi Jacket” era uma camisa feminina de decote alto, abotoada na frente, e normalmente usada com uma swiss waist ou um cinto. A costura do ombro é bastante baixa e as mangas são bastante cheias também. Embora haja várias referências ao costume de usar a camisa na cor vermelha, outras cores eram igualmente comuns.

A peça aparece primeiro no guarda-roupa dos meninos, mas se popularizou como peça feminina a partir da edição de Janeiro de 1862 da Godey’s Lady’s Book:

blusa garibaldi

“Notável entre as novidades da estação em Paris, e aparentemente capaz de produzir uma mudança análoga à revolução no guarda-roupa feminino, está a Camisa Garibaldi, que pode ser feita em flanela estampada, merinó, musselina, cambraia estampada, piquê ou lã foulard. Sua forma é obtida da mesma forma que a camisa masculina, com pregas frontais a partir da cintura, mangas cheias, colarinho pequeno e punhos dobráveis combinando com o colarinho, sendo tudo feito do mesmo material; as barras devem ser feitas de modo a ficaram embaixo da saia e permitirem uma folga de tecido em toda a volta da cintura, produzindo um efeito gracioso. É a mais bela e elegante peça que uma mulher pode vestir de manhã, para o café, e já é grandemente requisitada nos círculos fashion. (Godey’s Lady’s Book, Janeiro de 1862)”

blusa garibaldi

A blusa Garibaldi foi muito popular nos Estados Unidos durante a Guerra Civil (1861-1865) não só pelo tema revolucionário que carregava, mas por uma questão de economia. Quando o corpete de um vestido se desgastava, era comum que fosse retirado e reaproveitado para outra coisa, dando origem a saias “órfãs”, para as quais as camisas, feitas de tecidos mais baratos, eram perfeitas. Por isso a blusa Garibaldi era normalmente feita em tecidos lisos e resistentes como a lã, que além de durar mais combinariam com qualquer coisa no guarda-roupa. No entanto, existem peças em museus e registradas em fotos que são feitas em algodão e até em seda, embora as últimas sejam beeem raras.

Uma das características mais marcantes da Blusa Garibaldi são as decorações em estilo militar, feitas com cordão soutache, passamanarias ou trancelim. Quase que em 100% das vezes, essa decoração é feita numa cor contrastante com a blusa, o que reforça a referência aos uniformes militares da época.

O uso da blusa Garibaldi ficou muito registrado em fotografias da época, que nos revelam uma  grande diversidade de decorações e de padrões de estamparia nas saias:

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MOLDES PARA BLUSA GARIBALDI

Não é fácil encontrar moldes ou diagramas para este tipo de blusa, justamente porque é o tipo de modelagem mais básico que qualquer costureira vitoriana saberia reproduzir só de olhar.  Um dos poucos diagramas que encontrei foi este:

blusa garibaldi

A Truly Victorian vende um molde digital para este modelo.

 

ALGUMAS DISCUSSÕES EM TORNO DA BLUSA GARIBALDI

Acho que existem tantas peças tão polêmicas no meio da reconstrução histórica do que essa blusa. Nos fóruns de Guerra Civil Americana, qualquer postagem sobre ela divide opiniões. Muitos blogs são taxativos ao dizer que a blusa garibaldi só era feita em lã vermelha com bordados pretos, o que é facilmente derrubado pelas próprias publicações de moda da época, que em 1862 já falavam sobre as blusas feitas em algodão branco. Você pode encontrar também gente afirmando com toda a convicção que a blusa garibaldi só era usada por mulheres jovens e ricas, mas fotos da época nos mostram mulheres de várias idade vestindo esse modelo.

O que nós sabemos de certeza é que essa combinação foi bastante usada, popular em várias faixas etárias, e que é uma ótima opção para quem está montando o primeiro traje vitoriano.

 

Quer sugerir um tema para o Dicionário de Costura Histórica? Deixe sua sugestão nos comentários 😉

SAIBA MAIS

Sobre a unificação da Itália: http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/a_dificil_trajetoria_da_unificacao_italiana.html

CONDRA, Jill;STAMPER, Anita. Clothing Through American History. Santa Barbara: ABC-CLIO, 2011.

Volume completo do ano de 1862 da Godey’s Lady’s Book: https://archive.org/details/godeysladysbook1862hale

Construção de uma Garibaldi Shirt, por The Dreamstress: http://thedreamstress.com/2013/08/the-oldest-ufo-yet-garibaldi-blouse/

COMENTÁRIOS

Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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