Etiqueta

Guia de Etiqueta para um Baile Vitoriano

Um dos principais eventos sociais da Era Vitoriana (1837-1901) eram os bailes e, como vários outros aspectos da vida naquela época, eles eram cheios de regras de etiqueta. Mais do que apenas uma ocasião para dançar, o baile vitoriano era uma oportunidade de se mostrar na sociedade, de ampliar o círculo social e, claro, flertar discretamente. Também eram uma espécie de vitrine dos bons costumes: durante os bailes, os presentes demonstravam seu bom gosto e riqueza através da roupa, da habilidade de dançar e conversar e dos modos durante a ceia – uma refeição leve, próxima dos coquetéis e finger foods de hoje em dia, que era servida durante um intervalo do baile para recuperar os bailarinos.

COMO SE VESTIR PARA UM BAILE VITORIANO

Apesar das muitas variações de silhueta feminina da Era Vitoriana, uma das regras implícitas do período era que os vestidos decotados estavam reservados para os bailes e vestidos de gala, como os de apresentação à Corte. Uma das principais marcas de um vestido de baile vitoriano é o decote muito aberto, geralmente com os ombros à mostra, e o uso de tecidos leves, que davam um movimento ainda mais gracioso à mulher durante as danças.

Para as mulheres jovens, em especial as solteiras, as cores mais indicadas eram as claras (tons de rosa e bege eram muito usados, mas também o próprio branco). Para a decoração, laços e flores, que podiam estar presentes inclusive nas tiaras. Luvas brancas e longas eram obrigatórias, pois nenhuma dama vitoriana de respeito dançaria com um homem tocando diretamente nas mãos dele.

Uma moça em idade de casar, que estivesse sendo apresentada à sociedade, deveria usar preferencialmente branco, champagne ou tons de bege, com algum detalhe em outra cor. Também era costume que as mulheres recém-casadas usassem seu vestido de noiva no primeiro baile que participassem após o casamento.

Esse vestido maravilhoso da Émile Pingat seria o tipo de coisa que uma mulher jovem e recém-casada usaria para chegar causando em qualquer baile vitoriano do final dos anos 1860.

À medida em que a mulher envelhecia, sua palete de cores começava a escurecer. Depois de um certo tempo de casada, geralmente após o nascimento do primeiro filho, ela já começava a usar vestidos de baile com tons um pouco mais fechados de rosa, azul e até vermelho. A ideia era que o vestido se tornasse menos jovial, mas cada vez mais elegante, refletindo o refinamento que se esperava de uma mulher de boa posição na sociedade.

Esse vestido dos anos 1890 da Maison Paquin é o que veríamos no corpo de uma dama de seus 30 anos, bem posicionada na sociedade.

Os livros de etiqueta da época falam muito sobre a necessidade de as mulheres mais velhas, com o colo e o pescoço já mostrando as marcas da idade, terem o bom senso de usar um fichu ou mantilha de renda em nome da decência. Mas, a julgar pela insistência dos livros nesse assunto, não deveria ser uma regra tão respeitada assim…

A Princesa Sophia Radzivil já estava quase pelos 40 anos quando foi retratada por Winterhalter. Com 40 anos ela já era considerada uma senhora na sua época, justificando sua escolha por uma mantilha de renda tão distinta, mas que dá uma certo ar de matrona ao seu traje.

Para os cavalheiros as únicas cores admitidas eram uma sóbria combinação de preto de branco. Para eles, o baile vitoriano era um local para ser conhecido e admirado pela sua sagacidade, boas maneiras e porte elegante, mas não pelo seu traje; a moda era território das mulheres, definitivamente.

O traje de baile dos cavalheiros era simples, mas muito distinto: calça e casaca pretos, com botões discretos; colete preferencialmente preto (os brancos eram mais comuns antes de 1840 e se tornaram regra no século 20); camisa branca com pequenas nervuras (pintucks) ou pregas, usada com um golarinho alto e engomado; gravata branca, pequena e sem qualquer textura; sapatos ou botas pretas, de bico fino e muito bem lustradas; e as inseparáveis luvas de pelica, que não seriam tiradas durante todo o baile.

 

CHEGADA AO SALÃO

Uma dama de respeito jamais chegaria desacompanhada em um salão de baile vitoriano! Ela sempre chegaria na companhia de um cavalheiro ou de uma aia, que poderia ser uma parenta mais velha e respeitável.

O cavalheiro, por outro lado, poderia comparecer sem uma dama. Mas, caso estivesse acompanhado, imediatamente após chegar deveria levar a dama até onde ela pudesse se sentar. Depois buscaria um cartão de baile para sua acompanhante e poderia então apresentá-la a seus amigos e conhecidos, que poderiam pedir uma das várias danças com a dama.

 

OS CARTÕES DE BAILE

O cartão de baile ou cartão de dança era onde a dama anotava os nomes de cada cavalheiro com quem dançasse ao longo da noite, ao lado do nome da dança dividida com ele. O cartão podia ficar preso ao pulso da mulher com um cordão ou fita ou ser colocado no leque.

cartão de baile vitoriano
Os cartões usados num baile vitoriano continham todo o programa que danças que seriam executadas durante a noite e espaço para danças extras – que poderiam ser pedidos especiais dos participantes.

O INÍCIO DO BAILE

Uma vez que os organizadores do baile davam a ordem para que a orquestra começasse a tocar, eles próprios eram os primeiros a pisar no salão. O início do baile era anunciado pelo toque de uma corneta ou pelas batidas do mestre de danças ou mestre-sala, caso houvesse um.

Para a primeira dança, o cavalheiro que houvesse trazido acompanhante deveria necessariamente dançar com ela. Na segunda dança, porém, deveriam se separar, pois não era bem visto que um par dançasse muitas vezes junto. Além disso, era dever dos cavalheiros garantir que nenhuma dama retornasse ao lar sem dançar ao menos uma vez -à exceção das aias, das senhoras mais velhas e das viúvas ainda de luto.

Caso não houvesse pares do sexo oposto em número suficiente, tanto damas quanto cavalheiros podiam dançar entre si.

A esposa e o marido não deveriam dançar juntos, pois isso era considerado uma grave falta de educação. Os noivos, por sua vez, deveriam evitar dançar juntos e, se o fizessem, não poderiam manter muita proximidade entre os corpos.

 

CONVIDANDO UMA DAMA PARA DANÇAR

Uma dama de respeito jamais tomaria a iniciativa da dança, pois esta era uma prerrogativa dos cavalheiros. Quando convidada para dançar, a dama não podia recusar, a menos que em seu cartão de dança já houvesse um nome para aquela dança ou se não tivesse sido apropriadamente apresentada ao homem.

Antes de convidar uma dama, o cavalheiro precisava primeiramente ser apresentado a ela por um amigo em comum. Feita a apresentação, ele deveria tomar muito cuidado com seus modos na hora de convidá-la. A etiqueta exigia que ele mantivesse uma distância respeitosa, curvando o tronco levemente e com muita elegância enquanto estendia a mão direita para a dama e falava “Daria-me a honra de uma dança?”, “Seria um prazer bailar com vossa senhoria” ou “Concederia-me sua mão para a próxima dança?”. O cavalheiro deveria permanecer nessa posição até que a dama respondesse. Ele então escreveria seu nome no cartão de baile dela, fazia uma reverência respeitosa e se retirava.

 

DURANTE A DANÇA

Quando o cavalheiro estava dançando com uma dama à qual acabara de ser apresentado, deveria ser cuidadoso ao conversar com ela. Terminada a música, ele fazia um reverência de leve, apresentava seu braço direito e a conduzia de volta à sua cadeira; se o assento estivesse ocupado, ele perguntava a qual lugar do salão ela gostaria de ser conduzida. Uma vez que a dama estivesse sentada, o cavalheiro deveria fazer outra reverência e se retirar, pois não podia tomar a liberdade de sentar ao lado dela a menos que fossem íntimos. A dama deveria responder à reverência apenas com um leve aceno de cabeça.

Embora se esperasse que o cavalheiro “puxasse papo” com a dama, a conversa deveria ser breve. Conversar demais durante a dança, especialmente próximo ao ouvido, era considerado de muito mau gosto. As risadas altas, os olhares frequentes (“encaradas”) ou uma conversa alta eram faltas graves no salão de baile.

Se a dama se sentisse cansada, poderia pedir ao cavalheiro para retornar ao seu lugar a qualquer momento.

 

SAINDO DO BAILE

baile vitorianoRecomendava-se que os convidados de um baile vitoriano saíssem sem incomodar os anfitriões. Deveriam partir em silêncio, sem despedidas, e na semana seguinte enviar um cartão ou fazer uma visita de agradecimento. Se fosse uma festa privada, com poucos participantes, uma despedida breve poderia ser feita.

As mulheres, solteira ou casadas, não podiam partir sozinhas ou poderiam dar espaço para comentários maldosos.

O fato de um cavalheiro e uma dama terem sido apresentados em um baile não significava que poderiam iniciar uma amizade. Para que isso acontecesse, os dois precisariam ser apresentados formalmente em outra ocasião.

 

 

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Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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