Moda

O Baile das Vítimas e o imaginário da Revolução Francesa

França, 1793. A guilhotina descendo diariamente no que hoje é a Praça da Concórdia e, à noite, parentes dos executados se reunindo para beber e dançar em honra dos mortos e celebrando o pouco de vida que lhes restava. Esse era o Baile das Vítimas.

“A França está dançando!

Ela está dançando desde o Termidor…Ela dança para se vingar, ela dança para esquecer! Entre seu passado sangrento e seu futuro obscuro, ela dança! Salva por pouco da guilhotina, ela dança…França, ainda ensanguentada e em ruínas, gira e faz piruetas e muda de direção em uma imensa e macabra farândola.”(Jules Goncourt, 1855)

BAILE DAS VÍTIMAS: UMA CRIAÇÃO DO ROMANTISMO?

A partir de 1825, quando Thomas Carlyle publicou seu livro “French Revolution”, historiadores europeus começaram a abordar a existência do macabro Baile das Vítimas, um evento exclusivo ao qual compareciam apenas os parentes de guilhotinados recentes. Narrativas sobre esses bailes circularam na França e na Inglaterra durante toda a primeira metade do século 19. Houve quem relacionasse os bailes aos membros da jeunesse dorée, uma espécie de gangue de dandies anti-jacobinos que organizaram ataques de toda a espécie ao Regime do Terror. No entanto, não há relatos da época do Terror (1793-1794) que confirmem que eventos como o Baile das Vítimas tenham de fato acontecido. Mas, apesar de serem aparentemente fruto da fértil imaginação dos românticos, o papel que esses eventos têm no imaginário contemporâneo da Revolução Francesa é imenso.

O que diziam os românticos?

Thomas Carlyle assim descreveu os Bailes das Vítimas:

“Os dançarinos, em traje de sua escolha, usam uma faixa de crepe ao redor do braço esquerdo: para ser convidado, é preciso que você seja uma vítima; que você tenha perdido um parente para o Terror. Paz aos mortos; dancemos às suas memórias! Porque de todas as maneiras deve-se dançar.”

O que eram esses eventos, afinal? Eram bailes particulares, acompanhados de uma ceia, como era o costume da época para qualquer baile, que supostamente ocorreram no Hôtel Thellusson. Somente parentes de pessoas guilhotinadas eram admitidas. Os relatos dos românticos dão conta de um toque macabro no dresscode do evento. Além do fumo (a faixa de crepe preto referida por Carlyle), seria costume das mulheres arranjar seus cabelos bem altos, como se fazia com os condenados no momento da execução; havia até mesmo mulheres que, no ardor revolucionário, cortavam os cabelos bem curtos. Tais estilos eram chamados genericamente de le toilette du condamne, mas não eram exclusividade do Baile das Vítimas. No meio do fervor revolucionário e das referências à Antiguidade Clássica, os cabelos cortados bem curtinhos, chamados de coiffure a la titus, já era popular entre os fãs de carteirinha da revolução.

Além dos cabelos, lembravam-se os mortos também nas roupas. Sobre os vestidos brancos e drapeados ao estilo grego, as mulheres acrescentavam fitas vermelhas cruzadas em vários pontos, que simbolizariam o sangue derramado. Essas fitas, chamadas de croisures à la victime, ficaram documentadas nas ilustrações de moda do período:

baile das vítimas revolução francesa

Usavam-se também fitas vermelhas cruzadas nas costas e amarradas na frente, abaixo do busto. Esse estilo em particular era chamado de ceinture à la victime:

baile das vítimas revolução francesa

Na Inglaterra, de acordo com os relatos mais empolgados dos românticos, tornou-se moda ainda adornar o pescoço com uma fina fita de cetim vermelho, em alusão ao corte da lâmina da guilhotina.

Embora haja alguma documentação visual da moda feminina da época que pode ser relacionada às descrições dos românticos, não podemos encontrar esses registros sobre trajes masculinos. A literatura que construiu a imagem do Baile das Vítimas sublinhou muito o papel feminino nesses eventos, já que seriam as viúvas as responsáveis por organizar os eventos.

REALIDADE OU FICÇÃO?

Mesmo que os Baile das Vítimas não tenham de fato acontecido, a existência das narrativas sobre eles tem um significado político e social. Essa fantasia pode muito bem representar a tentativa de um povo de explicar um momento tão conturbado de sua história que não poderia ser entendido por meios puramente racionais; daí a tentativa de compreender a imagem do Baile das Vítimas como uma forma de resistência pacífica e debochada. Vale lembrar aqui que, na primeira metade do século 19, a França ainda sentia as consequências da Revolução Francesa numa série de levantes populares e no sobe-e-desce de reis. No restante do continente, a Revolução também fizera muito estrago e os anos de guilhotina ainda estavam bem presentes na memória (especialmente das cabeças coroadas!). Entre os ecos da Revolução e o medo dela, o humor negro surge como arma. Acaso não é a irreverência até hoje uma forma de lidar ou de digerir as coisas contra as quais não podemos lidar de forma racional?

COMENTÁRIOS

Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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