Costura Histórica

Anágua bustle: Um mar de babados!

Depois do bustle lagostinha de fevereiro, o projeto de março era quase óbvio: uma anágua para cobrir a anquinha. a anágua é realmente um negócio indispensável para trajes de época. Ela não só evita que as armações fiquem marcando na saia, mas também ajuda a melhorar o caimento e a estrutura geral da roupa. No caso de um traje bustle, com a anquinha só na parte de trás, a saia ficaria meio caidinha sem a anágua e não teria aquele efeito “acabei de sair do túnel do tempo” que a gente tanto procura com trajes históricos.

Por motivos de contenção de gastos + teimosia, decidi que faria meu próprio molde ao invés de usar um molde pronto como os da Truly Victorian (que eu amo, mas nosso relacionamento está meio abalado no momento por causa do dólar). Agora admito que isso não foi uma ideia das mais inteligentes, porque levei muito mais tempo do que gostaria calculando ângulos e comprimentos das partes da anágua. E nada que tenha mais de 20m de babados é fácil ou rápido de fazer.

A INSPIRAÇÃO

Eu queria um mar de babados que fosse realmente multiuso, ou melhor, multi-era: desde o começo minha ideia era criar uma anágua que servisse tanto para o auge da Primeira Era Bustle quanto para o auge da Segunda. Nos dois casos, eu realmente queria aquele efeito prateleira no bumbum, que é necessário para mim por uma questão de equilíbrio. Com as minhas medidas, uma anquinha (e uma saia) pequenas parecem simplesmente desproporcionais! Então, o desafio era combinar duas silhuetas em uma.

Encontrei alguns modelos da época que acabaram servindo de base para o meu molde:

Modelo de 1872 de uma revista húngara.

 

anágua bustle 1874
Não consegui identificar a revista, mas esse modelo deve ser de 1874. Se você olhar bem, vai ver que a cauda pode ser recolhida com cordões franzidos.

 

anágua bustle 1882
Esse modelo de 1882, mais sequinho, também me pareceu interessante. Ela também é regulável.

Por incrível que pareça, não existem muitas anáguas originais desse período para consulta. Encontrei muito mais descrições em texto, falando sobre a confecção e os materiais usados, que variavam desde o algodão mais simples até sedas e rendas francesas extremamente elaboradas. Acabei optando pelo algodão e por decorações todas feitas do mesmo material.

O que eu usei?

6m de algodão branco pré-lavado, daqueles que se usa para lençol

17m de renda de algodão bem miudinha

5m de passa-fita de renda de algodão

6m de bordado inglês largo

 

FAZENDO O MOLDE DA ANÁGUA

Depois de muto quebrar a cabeça e fazer vários modelos em miniatura para testar as possibilidades de construção, cheguei a esse molde.

Montei essa imagem para o instagram 😉

Eu poderia ter feito a curva de encaixe do bustle na barra? Sim, mas preferi trabalhar com a barra reta porque usei um algodão bem fininho, daqueles super chatos de trabalhar no viés.

MONTAGEM DA ANÁGUA

Todos os tutoriais que vocês vão encontrar na internet falam que as anáguas vitorianas eram montadas da barra para o cós e eu resolvi seguir essa fórmula à risca. Mas acho que isso acabou atrasando meu trabalho. Se fosse uma metragem menor de babados, como nas anáguas vintage, até funcionaria melhor. Mas, com 26m de babados, acabou ficando meio complicado até de mexer com a anágua na máquina pra costurar.

A primeira coisa que eu fiz foi marcar a posição de todos os babados com um risco em giz. Depois costurei frente e costas, deixando uma pequena abertura do lado esquerdo, na parte de cima, para facilitar na hora de vestir.

Com a base costurada, comecei a montar os babados. Já fiz a barra em todos eles e apliquei as rendas e passa-fitas necessários. Comecei costurando o babado de baixo, que era o mais largo e decorado, e também um dos mais importantes: devidamente engomado, ele vai ajudar a dar suporte na barra da saia pela frente, para que a saia não fique apenas um negócio escorrido em cima das pernas. Foi o babado mais decorado também. Como muita gente pede para ver o que está embaixo dos meus vestidos de época, gosto dos meus undergarments bem caprichadinhos e decorados – e não seria diferente com esse bebê:

Bordado inglês + passa-fita de algodão para ficar bem fofinho.

A cada babado, eu ia colocando a anágua na manequim para me certificar de que estava ficando como eu queria:

No final, fiz pences no painel da frente e franzi as costas para chegar ao formato perfeito para a anquinha:

Ainda sem corset na foto, então a silhueta vai mudar um pouquinho ainda, mas bem de leve.

O cós é regulável, como eu faço em quase todas as minhas anáguas. Isso é bom por dois motivos: oscilação de peso e empréstimos de peças para amigos.

E como seriedade não é meu forte, sempre rola uma zoeirinha na hora de fazer as fotos:

Brincadeiras à parte, ela cria um volume maravilhoso na parte de trás da saia e me dá exatamente o suporte que eu preciso. Nessa foto vocês conseguem ter uma ideia de como fica a silhueta com uma saia em shantung, que foi feita sem forro nenhum e ainda não ganhou os puffs do bumbum:

COMENTÁRIOS

Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »