Portfólio

Portólio: D. Joaquina (1850-1860)

CONHECENDO A PERSONA

D. Joaquina Brião (1850-1860) foi a primeira persona que eu construí, quando começamos as atividades de living history com a Sociedade Histórica Destherrense. Era pra ser apenas um exercício, mas acabou se tornando uma personagem fixa que guia o passeio “Floripa Imperial” da Floripa Dazantiga. Nesse passeio nós refazemos parte da caminhada realizada pelo Imperador D. Pedro II durante sua visita a Florianópolis (ainda chamada de “Desterro” na época) em 1845, contando não só a história da visita, mas também como era viver na cidade na metade do século 19. Para dar conta disso tudo, eu precisava de uma personagem que pudesse atuar como uma espécie de “cronista de costumes”.

Ela é uma mulher de classe média alta, casada com um comerciante bem estabelecido na cidade. A família tem um sobrado na região central (para quem conhece Floripa, a região em torno da Praça XV) e uma propriedade rural na Freguesia do Ribeirão da Ilha. Isso dá para D. Joaquina um certo conhecimento não só sobre a vida do centro, de uma elite local com referências de comportamento e consumo europeias, mas também sobre a região rural da Ilha, onde práticas culturais dos imigrantes açorianos ainda eram preservadas. Essa posição social de D. Joaquina também lhe permite falar sobre algumas questões políticas locais e trazer o tema da escravidão, que é bem espinhoso por aqui, embora pela perspectiva de uma proprietária de escravos.

D. Joaquina é uma personagem MUITO falante, ouso dizer “fofoqueira” mesmo, como uma boa cronista de costumes deve ser.

O KIT

Originalmente, ela usava um traje vermelho, que, além de ter uma série de probleminhas de silhueta (aqui eu falo sobre eles), não funcionava muito bem com a personagem:

Apesar da personalidade comunicativa, ela não poderia se destacar tanto no meio da paisagem e do grupo, ou perderia o local de uma cronista e passaria a ser observada e não observadora. Então comecei a retrabalhar a paleta de cores e optei por tons de verde, azul e marrom, fechando uma combinação que aparece bastante nas fashion plates do período 1850. Eu tinha duas questões para levar em conta:

  1. Nenhuma mulher elegante usaria qualquer coisa menos do que seda na presença do Imperador;
  2. O período 1840-1850 é a década de ascensão das tinturas à base de anilina, então era necessário tomar um certo cuidado com as cores.

O ponto de partida foi uma visita ao setor de cortinas das lojas de tecido, até que encontrei um tecido com um tom de verde que ficava bem na minha pele e atendia às necessidades da personagem. Seda sintética, claro, mas o suficiente para que me sentir a Scarlett O’Hara fazendo vestido com tecido de cortina.

SAIA DE CRINOLINA

 

Saias dos anos 1850 têm uma estrutura muito simples: são basicamente retângulos pregueados na cintura. Eu sempre sigo a técnica vitoriana: começo pela barra e regulo a altura de tudo no cós, assim posso fazer as costas um pouco mais longas sem precisar costurar uma barra arredondada. Esta saia deveria ser forrada, até porque o tecido deixa passar a luz, mas a anágua é suficiente para “fechar”, então pulei o forro. Ela tem pouco menos de 4.5m de roda.

Optei por fazer um traje estilo 1850 porque o passeio em si cobre o período 1845-1865 e os anos 1840 são uma década que não me atrai. Como eu uso muito mais trajes de crinolina, trabalhar com 1850s era uma escolha óbvia. Sobre a montagem da crinolina, você pode conferir um post aqui.

 

BLUSA

É a única parte do traje que eu mesma não fiz. A blusa é um achado de brechó, parte de um antigo traje de prenda (típico do Rio Grande do Sul) e, apesar de não ser historicamente correta, ela funciona muito bem. Ela é de algodão e tem mangas bem amplas, com várias decorações que são próprias do período:

 

CINTOS

As saias desse período aparecem em diferentes combinações que não necessariamente usam corpetes, mas blusas ou boleros. Nesses casos, elas sempre têm um elemento de transição da saia para a parte de cima, normalmente uma espécie de cinto. Para este traje, fiz dois modelos de cinto, prevendo diferentes combinações:

Sash de algodão xadrez, finalizado com aplicação de renda guipure em degradê. É preso ao cinto com botões de pressão e ganchinhos.

 

Cinto de cetim rosa, entretelado, com fivela

BOLERO

O bolero do traje é inspirado nos modelos zuave, que aparecem nos anos 1850 e dominam a década seguinte. É uma peça coringa e confortável, confeccionada em um xadrez algodão e forrada com tricoline. Ele não tem barbatanas, mas a técnica de forro (“flatlining”) dá uma ótima estrutura. As mangas amplas, do tipo pagoda, são feitas para deixar a manga da blusa à mostra:

Acabei me baseando levemente nesse molde alemão, mas com váaaaarias adaptações para o meu gosto:

jaqueta zuave

TOUCADOS

Assim como no cinto, achei que ter opções de toucados poderia ser interessante. Confesso que mudo os toucados de acordo com o meu humor no dia de cada evento, hahahahahaa. D. Joaquina tem um fanchon de renda branca, que apareceu na foto aí em cima, e também uma tiara de flores, toda feita à mão, com laços rosa ou azul dependendo do cinto que eu estiver usando:

Detalhe da tiara com flores e laços

UM TRABALHO EM DESENVOLVIMENTO

Este é o meu traje favorito, sem sombra de dúvidas. Tanto que ele foi ganhando algumas adições ao longo do tempo (ele começou a ser feito em 2016 e é um trabalho eternamento em andamento):

Um corpete de passeio e um bonnet que não ficou lá essas coisas.

O corpete de passeio foi baseado em um modelo do Victoria & Albert Museum, a partir do livro de moldes de Janet Arnold:

 

Outra adição necessária para enfrentar o inverno da Serra Catarinense foi o muff, uma alternativa para o fato de que eu não consegui uma luva de inverno que passasse por histórica:

Um muff (rolinho) de pele falsa para aquecer as mãos no frio da Serra Catarinense.

Os próximos passos incluem fazer um corpete baixo (para jantares e bailes) e adicionar um barrado franzido na saia, para ganhar alguns centímetros de comprimento e disfarçar as marcas de uso que ela já tem na barra.

E COMO ELE FICA EM MOVIMENTO?

Tem videozinho para mostrar o traje e o movimento da crinolina num dos lugares mais lindos de Floripa: o Palácio Cruz e Sousa <3

 

EXTRAS

  • Quando falo sobre os meus trajes aqui na seção portfólio, vocês sempre me vêem usando termos como “persona”, “kit” e “living history”. Para quem não está familiarizado com essas noções, que vêm da reconstrução histórica, estou separando aqui alguns links do site da Sociedade Histórica Destherrense que explicam direitinho cada um deles:

Living History: Viva a História onde ela aconteceu

O que é uma “persona histórica”?

O que é um “kit”?

  • Lá no meu instagram (@amodistadodesterro) você encontra um camada-a-camada da montagem desse traje!

 

COMENTÁRIOS

Historiadora, costureira e apaixonada pela história das coisas miúdas e aparentemente insignificantes. Alguém que acredita que a vida é muito curta para usar roupas comuns e que a moda é, sim, um espelho da história.

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